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Salus in Caritate

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Para os seres dotados de conhecimento, a atenção é como o sol. Quando não prestamos atenção, é como se caminhássemos através de uma noite escura por entre valiosíssimos tesouros de beleza, bondade, ciência..., sem percebê-los nem nos apossarmos deles.

Com a atenção, esta luz espiritual que é nossa pessoa, enquanto capaz de conhecer as coisas, se volta para um objeto ou tesouro, ou para um conjunto de qualidades ou objetos, ilumina-os, apodera-se deles através da mente e os arquiva na memória.

Quanto mais nobre e útil for o objeto, quanto mais poderosa for a inteligência que o ilumina e quanto mais profunda e detidamente nele se fixar, tanto maior será o enriquecimento e a satisfação intelectual.

Graças à atenção bem dirigida, os sábios realizaram suas descobertas, os artistas suas obras-primas, os industriais e comerciantes suas fortunas e os santos sua perfeição.

Prestar atenção ou atender é “interessar-se de fato por alguma coisa”; pressupõe disposição física (olhos abertos, uma certa tensão muscular etc.) e preparação mental, ou estar à espera de algo. É dar-se conta do que vemos, sentimos, ouvimos ou lemos. Implica também seleção: dentre as inúmeras impressões externas (cores, sons, objetos etc.) ou reclamos internos (necessidades, instintos, inclinações) que a cada instante batem à porta da consciência, quando atendemos, selecionamos algo que nos interessa, abrimos-lhe a porta e o introduzimos no mais íntimo de nosso ser, no centro de nossa consciência.

Há uma atenção espontânea. A que nasce, por exemplo, quando uma súbita detonação ou um grande resplendor nos tiram de nossos pensamentos e nos atraem a si ou quando alguma coisa agradável ou interessante nos prende sem esforço nosso. Esta espécie de atenção é a que predomina nas crianças. Devemos desenvolvê-la fomentando o interesse e o entusiasmo.

Há também a atenção voluntária, que exige algum esforço, porque supõe conflito com outros estímulos que nos atraem em sentido diverso. Devido a esse esforço, se a atenção voluntária se prolonga demasiado, pode provocar enfado ou cansaço; se, porém, for educada convenientemente, produz o hábito da atenção tranquila.

A atenção habitual, na qual cessou o conflito e o esforço foi reduzido ao mínimo, é a atenção eficiente de que vamos tratar e que devemos visar em todos os nossos trabalhos.

Compreende a mente, que se concentra em uma só coisa ou ideia, sem distrações a interrompê-la, nem ideias parasitas a obsesssioná-la.

É ajudada por sentimentos positivos de paz, confiança e alegria que geram interesse.

É robustecida pelas emoções positivas que levam ao entusiasmo. Contudo, é dificultada pelos sentimentos negativos: desânimo, temor, tédio.

Pressupõe uma vontade razoável de aprender, conforme as possibilidades, excluindo a vontade impulsiva que quer mais ou melhor, e mais depressa do que convém.

Precisa do apoio dos músculos no estado normal ou em leve tensão; prejudica-a a tensão insuficiente que há no estado de sonolência ou a tensão excessiva que se verifica no estado de nervosismo.

Apoia-se especialmente em olhos mansos, flexíveis e que piscam com frequência, evitando os olhos duros e imóveis.

Nutre-se de sangue rico e abundante no cérebro, bem como de respiração ativada, evitando a excessivamente acelerada.

Quando a atenção reúne todas estas condições e não se prolonga demais e quando, graças ao hábito, tudo se torna natural e espontâneo, então o trabalhador intelectual terá eficiência máxima, sem perigo de cansaço.

Nosso modo de prestar atenção pode ser meramente receptor: é o que existe quando queremos inteirar-nos de algum assunto ou quando conhecemos ou percebemos objetos, sons, acontecimentos, ideias etc. sem acrescentar nada de pessoal. Nela aumentam levemente a respiração, a circulação e a tensão muscular.

Costuma fluir suave e continuada, como a tranquila corrente de um regato, com pouca possibilidade de cansaço, a não ser por excesso de duração. É às vezes explosiva ou espasmódica como impetuoso manancial que jorra aos borbotões, e então a possibilidade de cansaço é maior. Por meio desta atenção receptora reunimos os materiais do saber.

Há outra atenção reflexa, elaboradora ou criadora, discursiva: é a que temos quando, não satisfeitos de apenas inteirar-nos de algo, o relacionamos com outros conhecimentos, associando-os entre si, classificando-os e dando-lhes unidade, ou dissociando-os, tirando conclusões e criando novos conhecimentos.

Então a possibilidade de cansaço é menos remota, pois também são mais acentuadas a tensão muscular, a respiração e o afluxo de sangue no cérebro.

Por meio da atenção criadora construímos “o palácio da sabedoria”.

Finalmente, destas duas atenções convenientemente repetidas, ou da marca que deixam, se beneficia a memória, a qual retém e reproduz o que se armazenou: vale dizer, conserva o “palácio”. 

Passemos ao estudo destas três atividades mentais e das leis ou normas que lhes dão maior rendimento.





ATENÇÃO RECEPTORA

A atenção receptora pode ser:

Concentrada: quando se fixa em um objeto ou ideia, com exclusão de qualquer outra; quando na consciência não há outro objeto; quando toda a capacidade de conhecer está centralizada em uma só consideração.

Esta atenção é a que produz verdadeira eficiência e satisfação. É a raiz de nossa grandeza.

Distraída: é uma ideia interrompida. É como se lançássemos um foco de luz sobre um objeto e de repente o foco se desviasse e nos deixasse no escuro, sem podermos iluminar perfeitamente o objeto.

Obsessionada por ideias parasitas que não desejaríamos ter. Coisas que aborrecem ou fantasmas temidos se interrompem entre a lâmpada e o objeto para impedir que gozemos o prazer do que queremos contemplar.

É a causa principal do cansaço.






ATENÇÃO CONCENTRADA

Temos atenção concentrada quando acompanhamos uma ideia com exclusão de qualquer outra, ou seja, quando a consciência se ocupa exclusivamente do que lemos, observamos ou escutamos, sem percebermos outra coisa.

É todo nosso ser que se debruça sobre o acontecimento ou ideia, atraído por eles, ou que é levado por sua própria inclinação ou vontade. É o hábito de atender sem esforço — adquirido através de atos reiterados de atenção voluntária — que se põe em atividade. É a luz do conhecimento que se acende e focaliza algo concreto; ou melhor, é toda nossa pessoa que, abandonando a semiobscuridade ou a inação, se ilumina, se ativa e se volta para um objeto ou conjunto de objetos, deles se apossando ou assimilando-os.

É tomarmos a rua reta que nos leva a um determinado ponto, sem nos desviarmos pelas ruas transversais, mesmo que ofereçam muitas atrações. Chegaremos mais rapidamente e quase sem cansaço.

Assim também, aquele que, ao estudar um livro ou um assunto qualquer, nele se absorve totalmente, esquecendo-se de tudo que o circunda, de si mesmo, de seus problemas, do funcionamento do corpo e da mente, chegará facilmente a resultados surpreendentes.

É o que acontecia com o historiador Macauley que, lendo pelas ruas, repetia de cor a página lida; com certo filósofo que, ao discutir ao ar livre sua tese favorita, continuou embebido na disputa, sem perceber a chuva que começou a cair; finalmente, é o que também acontece com as crianças que, absorvidas em seu jogo, correm atrás da bola, sem perceber o carro que as atropela.


Em outras palavras: rendimento máximo com cansaço mínimo.

Do desgaste de uma ou mais horas de perfeita concentração, sem pressa ou ansiedade, recuperamo-nos com alguns minutos de suave repouso da mente, por meio do relaxamento dos músculos faciais ou oculares, ou por meio de sensações conscientes, mudança de ocupação e exercícios físicos.

Um dia deste trabalho mental ordenado se refaz com uma noite bem dormida, podendo-se deste modo continuar por meses e anos, sem perigo de esgotamento. Pois então, em vez de destruirmos a natureza, violentando suas leis sábias, nós a fortalecemos respeitando tais leis.

Não se pense que este trabalho continuado produza aborrecimento ou tédio; muito pelo contrário. A unidade da mente concentrada e o enriquecimento intelectual resultante são fontes de verdadeira satisfação. “A alegria, diz Aristóteles, é consequência de todo ato perfeito.”

A base da grandeza humana de Napoleão Bonaparte foi sua grande concentração mental. Conta-se que ele, quando estudava um problema, se absorvia de tal modo que parecia não ter outra coisa a fazer. Resolvido um problema, passava a outro, esquecendo-se do anterior e do seguinte. Com este sistema, conseguia trabalhar mentalmente até dezesseis horas por dia.

Esta capacidade de deixar de lado qualquer outro assunto e poder concentrar-se no que se quer é a raiz da grandeza do homem.

Poderíamos sintetizar seu valor da seguinte maneira:

Talento + CONCENTRAÇÃO = Êxito do Caráter + Santidade


Aplicada ao estudo ou negócio, se manifesta em talento, ciência, ampliação de horizontes, visão de oportunidades, solução de problemas.

Quando se tem que tomar uma decisão, a atenção concentrada permite que se veja com nitidez o objetivo, os motivos para querê-lo e os meios para alcançá-lo.

Noutras palavras, nos dá caráter, força e constância de vontade.

Na vida de oração e santidade, a concentração se converte em luzes espirituais que nos afeiçoam à virtude e em força sobrenatural para praticá-la.



Como melhorar a concentração

Uma vez considerada como principal fator de eficiência, saúde e felicidade, tudo o que dissermos mais adiante ajudará a melhorá-la: o afastamento das causas de divagação e obsessão; o despertar do interesse e entusiasmo, como explicaremos na vida afetiva; a ajuda do ato eficaz da vontade; a melhoria do funcionamento orgânico neuromuscular, sanguíneo e respiratório; a formação do hábito da atenção perfeita, que estabiliza a concentração e evita o cansaço.

Como exercícios científicos para reeducar a concentração, recomendamos as sensações conscientes que, além de nos proporcionar descanso e alegria, reforçam a atenção estática; os exercícios do Dr. Vittoz, como os descrevemos, com os quais se reeduca a atenção sucessiva ou em movimento; o desenvolvimento do espírito de observação, usando, por exemplo, o seguinte exercício: fixar a atenção durante um minuto em algum edifício, sala, pessoas, ações, ruídos etc. Repetindo o exercício por alguns dias, veremos que iremos captando detalhes e facetas que da primeira vez nos escaparam.




Quatro períodos ou fases

A concentração não nasce de repente. Costuma haver um primeiro período de ajustamento no qual os nervos e músculos, possivelmente sobreexcitados, se vão adaptando ao novo trabalho, e a mente, postos de lado outros pensamentos, vai penetrando no que lhe está presente. Varia muito a rapidez na adaptação e penetração na nova concentração. Segundo Wiersma, é menor nos melancólicos e excêntricos; talvez porque as ideias ou imagens que precederam tendem a permanecer neles por mais tempo que nos tipos normais.

Para facilitar esta adaptação, é necessário repelir o que nos pode distrair:

a) Fora de nós: acumulação de papéis ou objetos sobre a mesa ou no quarto;

b) Dentro de nós: multiplicidade de problemas que temos que resolver, ou ações em perspectiva ou ideais que pretendemos realizar. Ataquemos uma coisa depois de outra: quem muito abarca pouco aperta.

Segue-se o período de aquecimento progressivo ou aprofundamento da atenção, no qual, uma vez vencido o torpor inicial e adaptados os nervos e músculos — “facilitação reflexa sináptica e tensional”, como diria Mira y López — a mente se abstrai cada vez mais, entra de cheio no assunto e nele mergulha. Esta abstração com relação aos demais objetos e a profunda consideração do assunto escolhido possuem graus e, de acordo com os mesmos, maior ou menor serão a eficiência e o prazer intelectual.




Seu extraordinário talento emparelhava com a profundidade de concentração.

Muitos são capazes de manter esta concentração durante uma ou várias horas, através apenas de uma decisão geral de atender a determinado assunto. Os enfermos ou esgotados, os inconstantes e inconsiderados e as crianças, pelo contrário, são menos firmes na atenção e têm que renovar a decisão e o interesse com frequência. Mais tarde explicaremos como a interrupção periódica do trabalho pode ser útil também às pessoas normais e sadias e, se houver tensão, mais amiudadamente, a fim de acalmá-las. Desta maneira, se consegue que o estado de prefadiga tarde a aparecer. Com isto também se consegue o retardamento do terceiro período. O terceiro período é o de saturação ou “nivelamento” entre aquecimento e cansaço, no qual a atenção arrefece, a evocação de lembranças antigas se torna mais difícil, a combinação de ideias e a elaboração de conclusões e sínteses exige maior esforço e o cansaço começa a se fazer sentir. Isto costuma dar-se mais ou menos após duas horas de atenção continuada; contudo, alguns indivíduos conseguem prolongar a atenção por mais tempo; também sucede que a mesma pessoa a possa manter com relação a determinadas matérias e a outras não.

Já Santo Inácio de Loyola, em 1550, aconselhava seus estudantes a não ultrapassar habitualmente duas horas seguidas de estudo sem fazerem uma breve interrupção.

Os psicólogos modernos inclinam-se a aceitar esta norma; alguns, porém, reconhecendo que a juventude estudiosa das grandes cidades costuma viver um clima de superexcitação, acham que ela deveria encurtar este período de aplicação séria ao estudo. É possível que as células cerebrais tenham já esgotado em duas horas suas reservas de energia e nos peçam alguns minutos para se recuperarem. Ajudemo-las mudando de ocupação ou de postura, ativemos os músculos inativos, a respiração, a circulação do sangue. Se não o fizermos oportunamente, chegaremos rapidamente ao quarto período, que é o de cansaço, no qual o aproveitamento decai progressivamente e o aborrecimento, o desinteresse e até mesmo a inibição aumentam, ou então o nervosismo, juntamente com o incômodo causado pelo esforço.




Prática

Entregue-se ao trabalho com plena determinação e confiança. Coordene o corpo e o espírito: não tome nem uma postura tão violenta e incômoda que, ao causar cansaço ou dor, produza a distração, nem tão comodista que faça afrouxar os músculos até provocar sonolência.

Tenha sempre algum motivo ou fim concreto. Diga, por exemplo: “Quero aprender o que diz este artigo ou capítulo sobre...; quero enriquecer-me com estas ideias; serão úteis para tal fim.” Este desejo e pretensão, posto que signifiquem muito para você e que se realizem em pouco tempo, poderão sustentar sua atenção. Se esta tiver que prolongar-se demasiado, aquele propósito seria insuficiente ou ineficaz, a não ser que a pessoa o faça por partes, fixando seu objetivo em cada parágrafo ou capítulo, porque então a vontade, sentindo sua utilidade e possibilidade, se aferrará a ele e comandará a atenção.

É o que fazemos quando, de lápis em punho, vamos resumindo um parágrafo após outro, ou sublinhando o que nos parece interessante para nossa finalidade.

Uma vez desencadeado este mecanismo, a concentração se produzirá por si — como o sono, sem esforço — sem ter que forçá-la: basta entregar-se ao trabalho em circunstâncias favoráveis. A música, o assobio, a mastigação (chicletes, por exemplo) ajudam a alguns, mas atrapalham a outros. Acostume-se a resistir à curiosidade de saber outras coisas ou o que se passa ao redor. Por outro lado, procure que a ocupação atual desperte em seu espírito interesse e entusiasmo. 

Comece com ânimo, mesmo que a princípio não sinta gosto nem progresso. Se, devido à fraqueza ou cansaço, a pessoa não pode concentrar-se em várias páginas de leitura ou em meia hora de dissertação, exercite-se várias vezes por dia em concentrar-se deveras; mas, sem tensão, em períodos curtos. Seu único escopo seja seguir a ideia e não propriamente evitar as distrações. Se estas sobrevierem, procure voltar novamente à ideia. Prestando bem atenção a meia página ou durante dez minutos de dissertação em cada exercício e continuando a exercitar-se várias vezes por dia, sempre por alguns minutos mais, rapidamente se conseguirá a concentração normal. Serão úteis para isso os exercícios das páginas 43 e ss..

Quando a pessoa se sente preocupada com o que tem que ultimar sem demora, deve dizer a si mesma: “Sim, são assuntos importantes, mas podem esperar; atacá-los-ei daqui a pouco.”





Concentração na oração

No estudo ou trabalho mental natural, dois elementos estabelecem a medida de nossa felicidade intelectiva: o interesse que o objeto ou verdade descoberta desperta em nós e a clareza com que a vemos. É o que se passa na obscuridade de uma caverna cheia de tesouros, quando se acende a luz que os revela: nossa alegria aumenta na proporção da importância ou beleza do tesouro que iluminamos e da clareza e morosidade com que o percebemos. Na oração ou trabalho mental sobrenatural, estes dois elementos atingem proporções ilimitadas, pois o objeto ao qual dirigimos a atenção é Deus, tesouro infinito, verdade e beleza totais, ou alguma coisa relacionada com Ele e a luz da sabedoria infinita se junta ao foco limitado do entendimento humano.

Quando estudamos, lemos ou pensamos sem plena concentração, não conseguimos eficiência nem satisfação verdadeira; com muito maior razão, quando tratamos com o Ser Infinito na oração, sem plena atenção, não poderemos dar um passo, nem gozar de suas delícias insuspeitadas.

A vida de Deus em nós se manifesta com frequência em jorros de luz sobrenatural, ondas de satisfação sobre-humana, antegozo do céu, íntima aproximação à Divindade... São luzes ou inspirações, fulgores luminosos que de súbito nos fazem ver horizontes e tesouros inesperados com uma clareza e evidência quase intuitivas. São os sentimentos e consolações espirituais que com frequência os santos experimentam e até mesmo os cristãos de boa vontade quando se entregam ao Retiro Espiritual ou se recolhem com sinceridade em oração. Consolações e luzes sobrenaturais que superam a todas as alegrias mundanas e que só podem ser saboreadas por quem as experimenta. São impulsos ou estímulos para a vontade que geram maior capacidade para realizar coisas difíceis.

Poderíamos reduzir tudo na seguinte fórmula matemática:

E + G = 1.000.000 RCD =

F + D = 0

RCD = Resultado da concentração nas coisas divinas; EG = Eficiência e gozo (ilimitados); FD = Fadiga e desgosto (nulos).




Poderíamos também apresentar outra equação:

Oração atenta — Raiz de toda santidade

Contudo, tais consolações sobre-humanas, tais cintilações divinas passam despercebidas à alma pouco recolhida. Também Deus por vezes não as concede, quando prevê que a dissipação interior da pessoa não lhe permitirá sequer notá-las ou apreciá-las.

Se nos decidíssemos a falar com Deus com todo nosso ser! Se nos aplicássemos com toda atenção ao que dizemos, mesmo na mais breve oração vocal! Se escutássemos o que Ele nos quer dizer na intimidade da oração! Deus só fala ordinariamente no mais íntimo do ser e só O sentiremos através da perfeita concentração.

Na oração, do mesmo modo que no estudo, a concentração não costuma dar-se de repente. O primeiro período de “ajustamento” muscular e mental é, no caso, mais necessário, pois quando oramos nos elevamos acima do visível, do temporal e do humano, a fim de penetrarmos no céu, para falar com o Infinito e descobrir tesouros sobre-humanos. Para se conseguir este “ajustamento” Santo Inácio recomenda que, uma vez no local da oração, elevemos o pensamento ao alto pelo tempo de um “Pai-nosso”, concentrando-nos na certeza de que Deus está ali presente e nos contempla e prestando-lhe uma homenagem, mesmo externa, de reverência.

Nas orações breves durante o dia consegue-se o mesmo resultado fazendo com sinceridade e respeito o Sinal da Cruz; com isto, nos colocamos imediatamente na presença da Santíssima Trindade e nos unimos a Ela. Por falta deste “ajustamento”, muitos nem sequer começam a rezar deveras e muito menos mergulhar na oração.

O segundo período consiste em desprender-se completamente da terra, penetrar de verdade no céu e entrar com recolhimento progressivo na intimidade com Deus; compreende vários graus, até se chegar a libertar das coisas sensíveis e sentir a Deus no nível mais profundo de nossa alma. Deus só fala no mais íntimo de nós mesmos e, como Ele deseja comunicar-se com suas criaturas, bem depressa o sentiremos, se empregarmos com diligência os meios humanos e atrairmos, pela humildade e confiança, sua ajuda divina. Verifiquei isto entre as crianças recém-convertidas de minha escola na China: quando, de olhos cerrados e mãos postas, se esforçavam para pensar no que rezavam, muitas delas sentiam tais consolações, que já nada mais desejavam que conservar esta felicidade por toda a vida e, para tal conseguirem, decidiram-se a abraçar a vida sacerdotal.

A dificuldade compreensível de se conversar com Deus, espírito invisível, tem fácil solução depois que Ele quis fazer-se homem. Agora podemos representá-lo como menino ou adulto, a rezar ou a trabalhar; podemos contemplá-lo quando se alimenta ou quando sofre.

Neste particular, mais do que no estudo, há graus de abstração das coisas sensíveis e concentração em Deus; conforme a profundidade da atenção, serão nossa aproximação com Deus, a participação de seus dons e o gozo espiritual. Por outras palavras, a uma concentração maior corresponde maior santidade, porque Deus, que não se deixa vencer pela generosidade dos homens, ordinariamente, recompensa desta maneira nosso esforço.

Esta concentração pode prolongar-se indefinidamente quando Deus faz jorrar sua luz; assim sucedeu com São Francisco de Assis, o qual, começando sua oração ao anoitecer, pela manhã se queixava do sol, porque viera tão rapidamente privá-lo das delícias da contemplação.

Contudo, façamos uma interrupção quando sentirmos ameaça de fadiga ou desgaste que poderia sobrevir, não da oração em si mesma, mas da inquietação de nossa mente, ou da tensão, principalmente nos olhos, ou finalmente de uma postura incômoda prolongada.







RESUMO PRÁTICO

AUXÍLIOS PARA A CONCENTRAÇÃO

  • Apreciá-la como raiz do talento e da grandeza
  • Afastar obstáculos: ruídos, pessoas
  • Suscitar interesse e entusiasmo
  • Querer a concentração, sem duvidar de sua possibilidade
  • Facilitá-la sublinhando ou resumindo
  • Começar com decisão e em local recolhido
  • Procurar a profundidade
  • Aproveitar o calor
  • Interromper aos primeiros sintomas de fadiga
  • Melhorar a função neuro-muscular, respiratória e sanguínea
  • Meio principal: vencer a divagação e obsessão, como se explicará nos capítulos seguintes.


Texto do Reverendo Narciso Irala






Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".




Todo conhecimento nos enriquece: apropriamo-nos do que aprendemos (Aprehendere, em latim, significa agarrar, apreender). Encontramos nisso grande satisfação. Por isso é que gostamos de viajar; as viagens nos fazem conhecer o mundo e os homens. Interessamo-nos pelas notícias, sobretudo pelas que têm alguma relação conosco ou são muito importantes. Apreciamos o cinema e as novelas porque julgamos ver nelas a realidade, apesar de sabermos que não passam de ficções, ou porque nelas descobrimos o gênio e a arte do autor. Sentimos imenso prazer quando entendemos leis importantes das ciências ou as causas últimas dos seres na filosofia.

Quem, porém, sente a plenitude da satisfação intelectual é o inventor que descobre algo que poderá aumentar a felicidade da humanidade e o santo ou homem que crê, a quem Deus comunica, na oração, luzes extraordinárias que os fazem vislumbrar realidades infinitas. Todos temos ânsia de saber; a curiosidade estimula a todos; nosso entendimento, de capacidade ilimitada, é um apaixonado pela verdade; mas essa paixão jamais será saciada neste mundo: só a Verdade Absoluta, no céu, poderá nos satisfazer completamente. Conta-se que um grande cientista e pensador respondeu a quem lhe perguntava se cria no céu: “Creio na felicidade intelectiva. Senti muitas vezes o prazer profundo de saber de novas e importantes leis naturais que eu antes desconhecia e de descobrir algumas que eram desconhecidas dos demais. O que mais desejo é continuar gozando cada vez mais desse prazer, mas a limitação da minha inteligência, do tempo e da minha resistência física é um empecilho intransponível. Creio que deve haver um estado em que possamos satisfazer essa necessidade de conhecer toda a verdade, com absoluta certeza e sem esforço algum.”

Nosso desejo seria aproximar o mais possível os leitores dessa meta, que a fé garante aos fiéis para a vida futura, explicando-lhes de modo mais singelo e claro os fatores psíquicos (psique = alma) e somáticos (soma = corpo) que lhes causam eficiência ou cansaço em seu trabalho mental. A água cristalina do saber, capaz de saciar nossa sede de felicidade intelectiva, vem até nós através de quatro canais ou, se se preferir, é a resultante de quatro vidas ou atividades vitais: a intelectiva, a volitiva, a afetiva e a orgânica.

Quando as quatro trabalham ordenadamente, concentrando seus esforços na mesma direção, a eficiência ou rendimento é máximo e o cansaço mínimo. Quando, porém, uma dessas vidas é perturbada ou não fornece sua contribuição completa, o fruto é menor e o cansaço maior.

Aquele que tem um conflito familiar ou social ou um grave problema econômico ou de consciência sentirá grande dificuldade de concentrar-se no estudo ou em qualquer outro problema que não seja sua situação interior: a vida afetiva que perdeu seu equilíbrio o atrapalhará.

O apático ou inconstante, o que se recusa a fazer qualquer esforço, não utiliza sua vida volitiva.

Dizem que o famoso naturalista Darwin mal podia trabalhar mentalmente duas horas por dia. Quanto teria realizado com uma vida orgânica mais sadia?

Será, portanto, de muita utilidade descobrir como poderemos ordenar cada uma dessas vidas ou atividades e tirar delas o maior proveito possível. Também será muito conveniente ver como seu descontrole nos cansa e prejudica.


Para tanto, iremos desenvolvendo o seguinte esquema:


I. ATENÇÃO

Reúne ideias

I. VIDA INTELECTIVA

REFLEXÃO: Relaciona-as


RETENTIVA: Conserva-as e as reproduz

II. VIDA AFETIVA

SENTIMENTOS: Despertam interesse


EMOÇÕES: Despertam entusiasmo

III. VIDA VOLITIVA

MOTIVAÇÃO: Dá força


DECISÃO: Dá constância

IV. VIDA ORGÂNICA

MÚSCULOS: Oferecem apoio


SANGUE: Dá alimento


RESPIRAÇÃO: Dá apoio e alimento



Texto do Reverendo Narciso Irala
1969









Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".







Vivemos numa era de realizações e progressos portentosos da ciência, da indústria, da medicina: rádio, televisão, energia nuclear, viagens espaciais, foguetes teleguiados, cérebro eletrônico, controle dos microrganismos, automação, transplantes etc.

A nova geração sente a urgência de avançar ainda mais. Procura maior eficiência. Professores, estudantes, profissionais da indústria e do comércio (trabalhadores mentais), do mesmo modo que os trabalhadores espirituais (religiosos, ascetas, pessoas dedicadas à oração e à vida interior) e, com eles, também muitos trabalhadores manuais, aspiram a melhores resultados, com menor desgaste em seu trabalho mental, espiritual ou manual.

Não obstante, nosso século é também uma era de esgotamento, de excessivo cansaço e profunda frustração entre a elite intelectual. Após uma hora de trabalho sedentário, muitos sentem calor na fronte e nas órbitas e como se um círculo de aço lhes apertasse o cérebro: ficam nervosos e tensos; outros sentem dor de cabeça, de nuca ou nas costas; têm dificuldade para descansar e para conciliar o sono. Dezenove milhões de pessoas sofrem de insônia nos Estados Unidos. Conhecemos professores de fama internacional prostrados pelo esgotamento. Inúmeros são os que sentem decréscimo de rendimento devido a distrações frequentes; a memória atraiçoa-os; preocupações ou ideias obsessivas atormentam-nos. Esgota-os uma semiconsciência simultânea de incapacidade, de esforço, de mau funcionamento do corpo e do espírito, de problemas, de falta de tempo, de futuros fracassos etc.; e não são poucos os que se sentem entediados e frustrados ou creem ser impossível alcançar o próprio ideal e ter prazer na própria ocupação e trabalho.

Desejariam conhecer mais a fundo o funcionamento de suas faculdades para conseguir maior rendimento, com menor cansaço. Procuram meios práticos para melhorar a atenção receptora, a inteligência elaboradora de novas conclusões e sínteses, a prontidão e fidelidade da memória, o interesse e entusiasmo e, através de tudo isso, o êxito nos empreendimentos.

Os que se esforçam por santificar-se e unir-se mais com Deus também desejariam aperfeiçoar o funcionamento das faculdades naturais na atividade sobrenatural, sobretudo na oração. E hoje em dia, quando os progressos da fisiologia revelam detalhes interessantes da mútua dependência do corpo e da alma, a todos interessa uma explicação mais completa sobre como o uso da vista, a tensão muscular, a respiração, podem ajudar ou prejudicar nossa eficiência quando pensamos, lemos ou escrevemos.

As quatro edições em espanhol do presente manual, devidamente esgotadas, tentaram satisfazer a este desejo, manifestado por várias Universidades, Colégios, Comunidades Religiosas e até Bancos, onde foi exposto o tema. Este manual não tem a pretensão de trazer novas contribuições à Psicologia ou Pedagogia, mas apenas reunir, em forma clara, breve e simples, algumas normas práticas que aquelas ciências e a fisiologia nos oferecem para produzirmos mais, com maior satisfação e menor cansaço, quando estudamos, lemos, escrevemos, rezamos, ensinamos ou planejamos.

Queira Deus que estas breves páginas aumentem em muitos a satisfação intelectual e espiritual, ajudem-nos a triunfar e a ser mais úteis aos outros e produzam finalmente, como um antegozo da felicidade perfeita da inteligência, que nos espera no céu.



Bilbao [Espanha], agosto de 1967

Reverendo Narciso Irala, S. J.



Para aprofundamento: Educa-te: Paideia Cristã 
Para aprofundamento: Livro A Mulher Católica: Graça & Beleza (Ana Paula Barros) 



Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia, Graça & Beleza.










"Esquivou-se de todas as atividades do mundo e viveu com pureza e santidade; foi amigo dos pobres, convicto de que sua alma haveria de pertencer ao céu. Manteve o corpo continuamente ocupado no exercício da pintura e nunca quis executar obras que não representassem santos", escreve Giorgio Vasari, biógrafo de Fra Angelico. Essa dedicação exemplifica como a cultura católica pode se manifestar através da arte. Também sinaliza a sua importância no processo educativo católico.

Por estarmos tão imbuídos por outras preocupações e por acharmos que a arte é um território muito distante, é comum encontrarmos alunos que não se interessam por arte porque não têm acesso a ela. O resultado é que, mesmo produzindo materiais de arte acessível, o tema ainda parece "não pertencer". Existe um grande muro de "não pertencimento" que distancia as pessoas da arte, assim como existe um grande muro que distancia o católico da cultura católica. Tanto em sua arte quanto em sua língua, o latim, muitos católicos sentem que "aquilo não é para eles". Uma marginalização silenciosa tomou conta do mundo católico, incentivada por discursos que distanciam ainda mais as pessoas de sua herança. Dessa forma, a arte católica, a música sacra e a língua só podem ser acessadas mediante pagamento, em locais fora da igreja. Nessa negligência está boa parte dos nossos problemas.

Cultura é um conceito que abrange os modos de vida, costumes, crenças, valores, normas, tradições, conhecimentos e manifestações artísticas de um grupo de pessoas. Ela é transmitida de geração em geração e evolui ao longo do tempo, influenciando e sendo influenciada pelo contexto histórico, social, econômico e geográfico. Os valores e crenças incluem ideias sobre o que é certo ou errado, importante ou insignificante, desejável ou indesejável. As normas e regras são diretrizes e expectativas sobre como as pessoas devem se comportar em diferentes situações, podendo ser formais, como leis, ou informais, como costumes e etiqueta social. A língua falada e escrita é um elemento-chave da cultura, permitindo a comunicação e a transmissão de conhecimentos e tradições. Tradições e rituais, como celebrações, festividades e cerimônias, compõem a linguagem simbólica da comunidade. A arte e a literatura refletem a criatividade, talentos e a identidade cultural de um grupo por meio de música, dança, pintura, escultura, teatro e literatura. Conhecimentos e tecnologia envolvem o acúmulo de saberes e técnicas desenvolvidas pela sociedade, sejam científicos, técnicos ou empíricos. Costumes e hábitos são os modos de vida e práticas cotidianas que distinguem um grupo de outro, como vestimentas, culinária e formas de socialização. As instituições sociais, como a família, a escola, a igreja e o governo, desempenham funções importantes na sociedade.

Nós temos uma forma de arte própria, temos uma língua (o latim), temos uma literatura, temos leis, instituições oficiais, costumes, festas, ritos, um calendário. Ou seja, nós temos as mesmas características do povo hebreu que, sem uma terra determinada, mantém sua tradição em outras terras. Ser católico é, também, mas não só, conhecer e viver essa cultura. A cultura católica, com toda essa estrutura física e espiritual, nos fornece a capacidade de viver no mundo sem ser do mundo. Nós fomos instruídos a acreditar que isso é um empecilho, mas isso é uma bênção. O Senhor nos deu no catolicismo uma grande pré-figuração do reinado do Senhor e da cultura do Reino.

Giorgio Vasari aponta que "Fra Angelico era humaníssimo e sóbrio e, vivendo castamente, desvencilhou-se dos laços do mundo; costumava dizer com frequência que quem pratica essa arte precisa viver em sossego e despreocupação, dedicado à alma, pois quem faz coisas de Cristo com Cristo deve estar sempre". Esse pensamento reflete a interconexão entre a vida católica fértil e a produção artística na cultura católica. O transcendente é o que movimenta o processo criativo do artista. Esse traço se perdeu quando não mais vislumbramos o transcendente, mas somente a imanência. A arte religiosa passou a expor somente o terreno, mas o terreno sem a luz do alto gera o vislumbre da solidão, da tristeza, de certa falta de ânimo e destino. Não são os sinais dessa anemia eclesial que vivemos?

A Igreja Católica desempenhou um papel vital na formação da arte, música, literatura e arquitetura. Grandes obras de arte foram encomendadas pela Igreja, resultando em um legado imenso que inclui as pinturas de Michelangelo na Capela Sistina, a arquitetura da Basílica de São Pedro e a música sacra de compositores como Palestrina, Bach, Mozart e José Maurício Nunes Garcia. Essa influência não se limitava apenas às encomendas, mas também à forma como a arte era concebida e utilizada para edificar:

"Dizem alguns que Frei Giovanni nunca pegava os pincéis sem antes orar. Nunca fez crucifixo sem que suas faces se banhassem de lágrimas. E isso se vê claramente nas atitudes de suas figuras, na bondade de sua grande disposição para a religião cristã", relata Vasari. Essa prática de Frei Giovanni mostra como a devoção pessoal permeava e enriquecia a produção artística, criando obras carregadas de significado espiritual.

Giulio Carlo Argan relata que "o frade remonta às grandes premissas ontológicas: no desenvolvimento histórico de sua pintura é possível enxergar um aprofundamento progressivo de sua doutrina. E, todavia, não é um doutrinário puro, um teólogo: da mesma maneira com que participa da discussão sobre a arte, também toma posição, quer demonstrar que uma pintura moderna não é necessariamente leiga e que uma pintura não é religiosa apenas porque ilustra piamente temas extraídos da vida de Cristo e dos santos. Sua pesquisa é dirigida, em suma, a conferir à pintura religiosa um valor intelectual, um fundamento teórico". Essa perspectiva clareia o assunto sobre o gosto artístico e a grande diferença que a disposição e adesão católica do artista faz na classificação de uma obra como católica. Fra Angelico, em si mesmo, pode nos fornecer uma grande amostra da conduta católica no meio das artes, produções culturais e processos criativos diversos. Em suma: a obra sempre leva em si partes do autor. Como também mostra a obra "O Retrato de Dorian Gray". A certa adoração do pintor ficou impregnada no retrato do rapaz, isso, somado ao desespero do rapaz diante de si mesmo congelado no tempo, perfeito e belo, gerou uma ação mágica e macabra na história. Mas passemos a reflexões mais felizes.

As celebrações e festividades católicas, como o Natal, a Páscoa e o Corpus Christi, são eventos que não apenas reforçam a fé, mas também promovem um senso de pertencimento e continuidade histórica. Reforçam laços familiares e sociais espirituais. Celebrar é descansar. O descrendenciamento da arte, tanto em qualidade quanto em valor reconhecido pelo povo, restringe uma das portas da contemplação e interfere na vivência da celebração, na fruição, que passa a ser uma busca incessante por uma sensação de arrebatamento que, sem arte e verdadeira e pacífica alegria, nunca virá.


Para aprofundamento: Revista Digital Salutaris: Educação Estética, Arte & Patrimônio 
Para aprofundamento: Educa-te: Paideia Cristã 



Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia, Graça & Beleza.







São Luís Grignion de Montfort, enquanto estava no seminário de São Sulpício, foi bibliotecário. Aproveitou o ofício para ler um grande volume de livros com a intenção de encontrar um método eficaz de ensino religioso. Ele era um seminarista muito pobre e expandiu o seu mundo conhecido através dos livros, o que facilitou seu profundo anseio missionário, exercido após sua ordenação em sua própria região.

Ao visitar inúmeros livros, constatou que, sempre que a devoção mariana era propagada junto ao evangelho, a ação educacional religiosa era bem-sucedida.







A Teologia Prática é a aplicação concreta dos princípios teológicos na vida cotidiana, preocupando-se com a maneira como a fé é vivida, expressa e transmitida. Ela engloba desde a pregação e educação até a devoção pessoal e a vida comunitária.

Dentro da Teologia Prática, encontramos a Teologia Moral, que foca nas questões de comportamento, ética e valores cristãos. A Teologia Moral abrange diversos temas, como vocação e moralidade, fornecendo uma base sólida para decisões e ações alinhadas com a fé católica.

A Teologia Educacional é outro ramo crucial da Teologia Prática. Esta área dedica-se à formação espiritual e intelectual através de métodos e práticas educacionais que integram a fé à vida cotidiana. A Teologia Educacional inclui a catequese, a educação formal e programas de formação contínua para todas as idades.







Em todos os lugares por onde passou, São Luís criou grupos de piedade com o objetivo de manter a devoção. Estes grupos também eram orientados a manter a vigilância, como visto no livro "Os Amigos da Cruz".

Esses processos são os primeiros degraus da educação católica e nos mostram, assim como Dom Bosco muitos anos depois de São Luís, que a devoção mariana é uma escola por si só. Ela abarca todas as áreas e possibilita uma maturação da Teologia Educacional em prol de uma Teologia Prática verdadeira e, acima de tudo, eficaz, que realmente é um facilitador na aplicação do evangelho. Além disso, influencia a Teologia Moral, que é um braço muito importante nessa dinâmica educativa.

A ação educativa da devoção mariana verdadeira está profundamente ligada à jornada do aprendiz, na aquisição daquele estado interior de quem escuta, compreende no coração e cresce no silêncio. No entanto, para que seja realmente mariana, é preciso desprender-se de imagens muito fora de quem é a Santíssima Virgem e abraçar todas as nuances da palavra "mãe". Amor e correção, proteção e direção, falas brandas e puxões de orelha, todas essas ações estão condensadas na ação de mãe. Por isso, é bom ter diante dos olhos essas ações executadas pela Santa Virgem em nosso processo educacional. E o mais formidável, acolher.

Também é muito oportuno apresentar o próprio processo durante a oração, como o filho que volta para casa contando o que fez na escola. Colocar não só as dificuldades, mas também o que deu certo, e pedir ajuda. Com o tempo, durante a pacatez mais convencional, a resposta daquele ponto se dá, quase como se sempre estivesse lá.

Por fim, o mais importante da devoção mariana em relação à teologia educacional é manter o estado de aprendiz e abraçar o ambiente próprio da devoção mariana ao estudar, ensinar e aprender. Refúgio, paz e leveza, todas contribuindo para a aquisição de uma participação na firmeza vinda dessa Torre de Marfim [de pureza e fortaleza] que é a Santíssima Virgem.




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Leia também: A Total Consagração à Santíssima Virgem Maria e a Estudiosidade 



Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".










A Total Consagração à Santíssima Virgem Maria é um compromisso profundo e abrangente, que visa não apenas a devoção espiritual, mas também o crescimento intelectual. Estudar é um dos primeiros efeitos dessa consagração, pois a busca pelo conhecimento é incentivada e guiada pela intercessão de Nossa Senhora.

Para muitos, a relação entre a total consagração e o movimento cultural católico pode não ser evidente. No entanto, é importante lembrar que os maiores propagadores de estudos dentro da ala tradicional da igreja eram consagrados a Nossa Senhora, utilizando o método de São Luís.

Quando um país enfrenta uma predominância de ideologias anticatólicas, a propagação da total consagração torna-se uma estratégia para que, através da intercessão de Nossa Senhora, ocorra uma transformação. Não se deve subestimar o impacto das consagrações em massa, que ao entregar seus méritos, aumentam a graça atual sobre os brasileiros, influenciando positivamente todos, independentemente de onde estejam.

Ainda que alguns mestres atuais destacados não sejam consagrados, é inegável que eles só existem devido ao aporte de graça concedido pela Santíssima Virgem. O desejo de estudo que Ela faz crescer nos corações daqueles que se entregam a Ela é a fonte dessa demanda intelectual.

A total consagração foi a resposta divina para equilibrar os ataques à família e à igreja. A família, muitas vezes vista como a resposta, na verdade, é o campo de batalha. A verdadeira resposta é a total consagração.

O processo educativo mariano segue três etapas: contrição, despertar da inteligência e fortalecimento da vontade. Esse caminho pode ser aceito de maneira total ou parcial. São os degraus da consagração apontados por São Luís em seu livro. Nem todos querem chegar ao último degrau. A vitalidade da graça proporcionada pela consagração varia entre os consagrados, mas isso não descredibiliza a ação da Santíssima Virgem, e sim, reflete nossas limitações humanas.

Nossa Senhora nos oferece caminhos e percursos educativos, livrando-nos das falsidades propagadas pela indústria e pela mídia, que nos afastam do Senhor Jesus.
Para isso, é preciso fortalecer a mente, não somente na aquisição de bagagem intelectual, mas também na purificação do mecanismo de mentalidade. É necessário se purificar da mentalidade revolucionária e buscar estabelecer um mecanismo de pensamento longe das falsidades dos discursos da mídia e da indústria, até mesmo da católica.


Digo isso porque, em geral, esses mecanismos são instrumentos de orientação das massas. Por exemplo, basta surgir uma personalidade influente e todos começam a falar, se comportar, vestir-se como ela e a se interessar pelos mesmos assuntos por ela abordados.


Na vida intelectual, é radical evitar seguir modismos e personalidades de destaque sem discernimento. A total consagração visa guiar o estudo e o desenvolvimento intelectual através da oração mental e do estudo.


Há quem tenha o desejo de trilhar os caminhos de educação e realinhamento de conduta sem ajuda, como se pudéssemos vencer todas as ilusões de forma humana. Não podemos. Precisamos de ajuda especial, de luz e santidade para trilhar sadiamente o caminho intelectual sem buscar autopromoção desmedida, a repetição de discursos ou status entre os pares.


Nos exercícios espirituais da total consagração, é possível encontrar um trecho sobre a avareza intelectual, uma postura que impede a generosidade. Por outro lado, há uma onda mais comum de desrespeito pelo tempo de estudo do outro, numa crescente desvalorização do professor, em paradoxo com a disputa de visibilidade imposta pelas redes sociais. O resultado é que o próprio processo de aprendizado se tornou uma mercadoria, trilhada de forma irregular e inconstante, conforme o mentor mais visualizado no momento.


Isso, naturalmente, interfere na visão que cada um tem sobre o seu processo educativo. Todos os processos educativos, inclusive o da total consagração, tornam-se transitórios e aceitos apenas enquanto favorecem o apreço e o prestígio. Depois disso, são desvalorizados e novas condutas se tornam mais adequadas.


Isso é o que vemos, mas esse não é o objetivo da total consagração. Seu processo educacional dura a vida toda e abarca todas as áreas da vida. A Santíssima Virgem sempre começa pelas áreas mais necessárias, mas não esquece as outras.


A estudiosidade que surge desse aporte de graça busca, com a intercessão da Santíssima Virgem, crescer em estatura [de virtude] e graça, seguindo um ritmo mariano, lento e tranquilo, mas sólido e, acima de tudo, franco.


Leia também: A importância da construção do castelo literário na vida intelectual e espiritual 






Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".




“Sempre tenha o livro sagrado em suas mãos, para que ele possa alimentar sua alma pela leitura devota.” - São Jerônimo 


"S. Bento, entre outros, ordenou que cada um dos seus monges fizesse todos os dias a sua leitura, e que houvesse dois encarregados de ir visitar as celas, para verem se todos observavam esta regra; e quando se achava algum nisto negligente, queria que fosse penitenciado. Mas, antes de todos, o Apóstolo a impôs a seu discípulo Timóteo, dizendo-lhe: Aplica-te à leitura." -  Santo Afonso Maria de Ligório



Começar a ver o estudo como uma constante, e não como um período, pode ser um desafio. Nós somos treinados a abandonar o lugar de aprendiz o quanto antes e incentivados a tomar posições de destaque prematuramente. Gastar tempo em estudo e mais estudo, ler para acumular uma bagagem sólida e trilhar um caminho sem imitar os outros não é um percurso que chame muita atenção. No entanto, há algo muito formativo em trilhar o próprio caminho de estudo e se dedicar a ele. Construir suas próprias listas de leitura e permitir que o ano seja repleto dessas pequenas conquistas é uma experiência enriquecedora.


É interessante observar o efeito que a construção de um castelo literário gera, especialmente quando é feito sem influências externas. Lembro-me de que fiz uma lista de leitura sobre neurociência sem conhecer ninguém que tivesse interesse nessa área. Mas eu, Ana Paula, gosto de neuroeducação. Ninguém se interessa, mas eu me interesso. E isso é o que considero uma lista de leitura bem feita: aquela que nasce de um verdadeiro interesse por um assunto ou área.


É claro que este caminho é mais trabalhoso. É muito mais fácil ler o que todos leem, imitar os caminhos dos outros. Mas a leitura é uma forma de traçar seu próprio caminho, sua identidade. Tudo pode parecer caótico no início, mas com o tempo, você descobrirá os temas que realmente te interessam e não buscará mais ler apenas o que todos leem e indicam. Mesmo no nicho católico, há uma tendência ao mimetismo, o que pode acabar impedindo você de ler um livro excelente porque o autor não é amplamente compartilhado. Ser capaz de trilhar seu caminho literário de forma independente pode abrir portas para conhecer talentos, contemplar habilidades e lapidar sua própria habilidade.


Quanto ao número de leituras anuais, é importante ter uma meta. No entanto, mais importante é ler e assimilar de forma adequada. A qualidade vem antes do número, mas é necessário ter uma meta numérica para não se perder. Você precisa, ao menos, ter o projeto do castelo literário que deseja construir neste ano. Que assunto deseja focar e, de preferência, que seja após avaliar seus próprios interesses, sem imitar outra pessoa.

Embora a imitação seja uma parte do processo educacional em qualquer idade, imitar por muito tempo torna o caminho cansativo e triste. O gosto por estudar e aprender que devemos manter até o fim da vida só é possível com um interesse verdadeiro.

Uma vez, escutei a história de um idoso que, já no hospital, mantinha o hábito de fazer todos os dias um simulado da prova de conclusão do ensino médio. Todos os dias, ele comemorava quando conseguia acertar uma questão a mais. Antes de morrer, ele fez a sua última prova e ficou feliz porque acertou mais do que no dia anterior. Ele aprendeu até o último momento de sua vida.

Este espírito é o espírito da vida intelectual. E nós o mantemos construindo um castelo literário anual, mas este castelo só é firme se for bem estruturado no interesse verdadeiro por algo.


Algumas coisas que podem ajudar são:

  • Fazer uma lista simples, digital ou no papel.
  • Utilizar leitores digitais e audiolivros.
  • Intercalar gêneros literários.
  • Dar a mesma importância para ensaios e ficção.
  • Não se esquecer de manter a postura de aprendiz, principalmente diante de um autor que você não conhece.
  • Ler todos os livros do mesmo autor auxilia a entender o pensamento do autor, pois um livro é apenas um fragmento do pensamento do autor.
  • Buscar ler ao menos um novo autor este ano. 


Para aprofundamento: Educa-te: Paideia Cristã 





Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: "Modéstia", "Graça & Beleza".








A Filocalia - Um Tesouro Literário entre Oriente e Ocidente

Professora Ana Paula Barros¹




Resumo


A Filocalia dos Santos Padres Népticos, compilada por Nicodemos, o Hagiorita, e Macário de Corinto, e publicada em 1782, é uma antologia patrística que reúne escritos de monges e teólogos orientais do cristianismo entre os séculos IV e XV. A obra reflete um itinerário espiritual que atravessa as etapas da purificação (katharsis), iluminação (theoria) e deificação (theosis), organizando-se como um repositório da mística hesicasta. O hesicasmo, enquanto tradição contemplativa centrada na oração de Jesus e na vigilância interior, fundamenta a proposta espiritual da Filocalia.

Embora de origem ortodoxa, a obra possui elementos teológicos e espirituais que ressoam também no Ocidente cristão, como evidenciado por sua recepção crescente na Igreja Católica e sua tradução para diversas línguas ocidentais a partir do século XX. Esse movimento favoreceu o reencantamento contemporâneo pela mística cristã. A presente pesquisa analisa a estrutura da obra, sua evolução histórica, os fundamentos teológicos do hesicasmo e sua relevância como patrimônio espiritual comum entre as tradições oriental e ocidental.

Palavras-chave: Filocalia; hesicasmo; espiritualidade cristã; tradição oriental.



1- Introdução


A palavra Filocalia vem do grego philokalia (φιλοκαλία), formada por phílos (φίλος), que significa “amor” ou “amizade”, e kalós (καλός), que significa “belo” ou “bom”. Portanto, seu significado literal é “amor à beleza” ou “amor ao bem”.

A Filocalia dos Santos Padres Népticos constitui um dos marcos mais relevantes da tradição espiritual cristã, configurando-se como uma antologia patrística que reúne escritos de monges e teólogos do Oriente cristão entre os séculos IV e XV. A obra articula temas centrais da mística cristã, como a oração interior, a ascese e a progressiva união da alma com Deus, dentro do horizonte da tradição hesicasta. Publicada originalmente em 1782 por Nicodemos, o Hagiorita, e Macário de Corinto, a Filocalia emerge como expressão de uma renovação espiritual no contexto do mundo helênico sob domínio otomano (a partir de 1454) e visa recuperar a profundidade da experiência contemplativa dos Padres do Deserto.

Grande parte dos textos reunidos na Filocalia remonta ao século IV, período de consolidação da teologia cristã após o Concílio de Niceia (325), com autores como Evágrio Pôntico, Santo Antão e Macário do Egito. Esses escritos antecedem em cerca de sete séculos o Cisma do Oriente, ocorrido em 1054 (século XI), que marcou a separação formal entre a Igreja de Roma (Ocidental) e a Igreja de Constantinopla (Oriental). O cisma foi resultado de tensões teológicas, litúrgicas e políticas acumuladas ao longo dos séculos, como a disputa sobre a autoridade papal, o uso do Filioque no Credo e diferenças na prática sacramental.

Embora a Filocalia tenha sido compilada bem depois do cisma, ela se ancora em uma tradição espiritual anterior à ruptura e comum às duas Igrejas, o que lhe confere um valor católico singularmente puro. Sua linguagem simbólica, sua antropologia espiritual e sua proposta de transformação interior dialogam com correntes contemplativas do Ocidente, como a tradição beneditina e carmelita. Nesse sentido, a obra se apresenta não apenas como um testemunho da espiritualidade oriental, mas como um patrimônio espiritual comum, capaz de enriquecer a compreensão da mística cristã em sua totalidade.





2. Panorama Histórico e Literário


A Filocalia dos Santos Padres Népticos foi publicada oficialmente em 1782, em Veneza. A obra compila escritos de mais de trinta autores da tradição oriental, entre os quais se destacam Evágrio Pôntico, São João Clímaco, São Máximo, o Confessor, Gregório Palamas, Simeão, o Novo Teólogo e Isaac, o Sírio. Esses textos são organizados de forma a refletir um itinerário espiritual ascendente, caracterizado pelas etapas da purificação (katharsis), iluminação (theoria) e deificação (theosis).

Inserida no contexto da espiritualidade hesicasta, a Filocalia condensa a prática mística consolidada no Monte Athos e em outras regiões do Oriente cristão. O hesicasmo (do grego hesychía, “quietude” ou “silêncio interior”) é uma tradição espiritual contemplativa que visa à união com Deus por meio da oração contínua, especialmente a chamada oração de Jesus (“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”). Essa prática é acompanhada por um esforço ascético de vigilância dos pensamentos (nepsis), recolhimento interior e desapego das paixões, buscando a pacificação da alma e a experiência direta da presença divina. A sistematização teológica do hesicasmo foi desenvolvida sobretudo por Gregório Palamas no século XIV, em resposta às controvérsias sobre a possibilidade de contemplar a luz incriada de Deus.

Após sua publicação original em grego, a obra foi traduzida para o eslavo eclesiástico e amplamente difundida no mundo eslavo ortodoxo, sobretudo na Rússia, por meio da atuação de Païssi Velitchkovsky. A partir do século XX, a Filocalia passou a ser traduzida para línguas ocidentais, como o francês, inglês, romeno e português, ampliando significativamente seu alcance e influenciando a espiritualidade cristã do Ocidente. Essa difusão contribuiu para o renovado interesse contemporâneo por práticas místicas e para o diálogo entre as tradições cristãs oriental e ocidental.




3. Estrutura da Obra


A obra é dividida em quatro tomos principais, que reúnem tratados completos de autores da tradição mística oriental, abrangendo um período que vai do século IV ao século XV.

Tomo I: reúne os escritos mais antigos, com destaque para autores como Santo Antão, Evágrio Pôntico, Marcos, o Asceta, e Diádoco de Fótica. Os temas predominantes são o combate espiritual, a vigilância dos pensamentos (nepsis), a humildade e a purificação interior (katharsis).

Tomo II: introduz textos voltados à prática da oração de Jesus e à interiorização da vida espiritual, com autores como Hesíquio, o Sinaíta, Nicéforo, o Solitário, e Teolepto de Filadélfia. A ênfase recai sobre a técnica da oração hesicasta e a busca da hesychía (silêncio interior).

Tomo III: contém tratados de autores como Máximo, o Confessor, e Gregório Palamas, que desenvolvem a teologia da iluminação espiritual (theoria) e da deificação (theosis), articulando experiência mística e reflexão teológica.

Tomo IV: apresenta textos de maturidade espiritual, como os de Simeão, o Novo Teólogo, Calisto e Ignácio Xantopoulos, e outros autores posteriores. Os temas centrais são a união com Deus, o amor divino e a plenitude da vida no Espírito.

Essa organização reflete a intenção dos compiladores — Nicodemos, o Hagiorita, e Macário de Corinto — de oferecer uma verdadeira “escola da oração interior”, acessível tanto a monges quanto a leigos comprometidos com a vida espiritual.




3. Fragmento da Obra






"É espiritual o ser humano o qual o Espirito Santo perpassou e ligou corpo e alma entre si." 
(Pai Irineu)





".... e esses homens estão longe de si mesmos, como ébrios de bebida, ébrios em espírito de mistério e de Deus."


(Pseudo-Macário, Homilias espirituais)



O termo "Padres do Deserto" inclui um grupo influente de eremitas e cenobitas do século IV que se estabeleceram no deserto egípcio. As origens do monaquismo oriental se encontram nessas ermidas primitivas e comunidades religiosas. Paulo de Tebas é o primeiro eremita do qual se tem notícia a estabelecer a tradição do ascetismo e contemplação monástica, e Pacômio, da Tebaida, é considerado o fundador do cenobitismo, do monasticismo primitivo. Ao final do terceiro século, contudo, o venerado Antão do Egito orienta colônias de eremitas na região central. Logo, ele se torna o protótipo do recluso e do herói religioso para a Igreja oriental – uma fama devida, em grande parte, à vasta louvação na biografia de Atanásio sobre ele. Esses primitivos monásticos atraíram um grande número de seguidores aos seus retiros austeros, através da influência de sua simples, individualista, severa e concentrada busca pela salvação e união com Deus. Os Padres do Deserto eram frequentemente solicitados para direção espiritual e conselho aos seus discípulos. Suas respostas foram gravadas e colecionadas num trabalho chamado "Paraíso" ou "Apotégmas dos Padres". (Por Emily K. C. Strand, tradução Jandira)


"Perguntaram ao Pai Ammonas: 'Qual é o caminho estreito e apertado?' (Mt. 7,14). Ele respondeu: O caminho estreito e apertado é este: controlar seus pensamentos e despojar-se de sua própria vontade por amor de Deus. Também isto é o significado da sentença: 'Senhor, eis que deixamos tudo e te seguimos.' (Mt. 19,27)"


Diziam dele que havia como que uma depressão escavada em seu peito, pelas lágrimas que caíram de seus olhos durante toda a sua vida, enquanto ele fazia seu trabalho manual. Quando Pai Poemen viu que ele estava morto, disse chorando: "Verdadeiramente você é abençoado, Pai Arsênios, pois você chorou por si mesmo neste mundo! Quem não chora por si mesmo aqui embaixo chorará eternamente então; por isso, é impossível não chorar, voluntariamente ou quando obrigado pelo sofrimento." (i.e., o sofrimento derradeiro no inferno).


Também era dito dele (Pai Arsênios) que, nas noites de sábado, preparando-se para a glória do domingo, ele virava-se de costas para o sol e elevava suas mãos em oração em direção ao céu, até que o sol novamente brilhasse em sua face. Então ele se sentava.


Dizia-se do Pai Ammoes que, quando ele ia à igreja, não permitia que seu discípulo caminhasse ao seu lado, mas a uma certa distância; e, se esse último viesse lhe perguntar sobre seus pensamentos, ele se afastava dele logo após responder-lhe: "É por receio que, após tão edificantes palavras, sobrevenham conversas irrelevantes, que eu não permito que caminhes comigo."


Foi dito do Pai Ammoes que ele possuía cinquenta medidas de trigo para seu uso e as colocara para fora, ao sol. Antes que elas estivessem devidamente secas, ele viu algo naquele lugar que lhe pareceu perigoso, então disse aos seus empregados: "Vamo-nos embora desse lugar." Porém, eles pareceram aflitos com isso. Vendo seu desalento, ele lhes disse: "É por causa dos pães que vocês estão tão tristes? Na verdade, tenho visto monges fugindo, deixando suas celas lavadas e também seus pergaminhos, e eles nem fecharam as janelas, mas deixaram-nas abertas."


Pai Abraão disse de um homem de Scete que era um escriba e não comia pão. Um irmão veio a ele para copiar um livro. O velho homem, cujo espírito estava absorto em contemplação, escreveu, porém omitindo algumas frases e sem pontuação. O irmão, tomando o livro e desejando pontuá-lo, notou que faltavam palavras. Então disse ao ancião: "Pai, faltam algumas palavras." O ancião disse a ele: "Vá e pratique primeiro o que está escrito, depois volte e eu escreverei o restante."


Havia nas celas um velho homem chamado Apollo. Se aparecia alguém chamando-o para ajudar em alguma tarefa, ele ia alegremente, dizendo: "Vou trabalhar com Cristo hoje, pela salvação de minha alma, pois esta é a recompensa que Ele dá."




Pai Doulas, discípulo de Pai Bessarion, disse: "Um dia, quando estávamos caminhando ao longo da praia, eu estava sedento e disse ao Pai Bessarion: 'Pai, estou com sede.' Ele rezou e disse-me: 'Beba um pouco da água do mar.' A água estava doce e eu bebi. Cheguei a pegar um pouco numa garrafa de couro, pois tive medo de ficar sedento mais tarde. Vendo isto, o velho homem perguntou-me por que eu estava levando água. Eu disse a ele: 'Perdoe-me, é por medo de ficar com sede mais tarde.' E o ancião disse: 'Deus está aqui, Deus está em todo lugar.'"


Um irmão perguntou ao Pai Poemen desta maneira: "Meus pensamentos me atormentam, fazendo com que eu deixe de lado meus pecados e me preocupe com as faltas de meus irmãos." O ancião contou-lhe a seguinte estória sobre Pai Dioscurus (o monge): "Na sua cela ele chorava por si mesmo, enquanto seu discípulo se sentava em outra cela. Quando este último veio ver o ancião, perguntou-lhe: 'Pai, por que choras?' 'Estou chorando pelos meus pecados' — respondeu-lhe o velho homem. Ao que o discípulo disse: 'Você não tem nenhum pecado, Pai.' O ancião replicou: 'É verdade, meu filho, se eu pudesse ver meus pecados, três ou quatro homens não seriam suficientes para chorar por eles.'"


Isto é o que disse Pai Daniel, o Faranita: "Nosso Pai Arsenius nos contou sobre um habitante de Scetis, de vida digna e fé simples; pela sua ingenuidade, ele foi enganado e disse: 'O pão que recebemos não é verdadeiramente o Corpo de Cristo, mas um símbolo.' Dois anciãos souberam que ele dissera aquilo. Conhecendo seu modo de vida correto, acreditaram que ele não falara por malícia, mas por simplicidade. Então, vieram a ele e disseram: 'Pai, ouvimos da parte de alguém uma proposição contrária à fé, que disse que o pão que recebemos não é verdadeiramente o Corpo de Cristo, mas um símbolo.' O ancião disse: 'Fui eu quem disse isso.' Então os outros dois o exortaram, dizendo: 'Não mantenha essa crença, Pai, mas aquela em conformidade com o que a Igreja Católica nos deu. Acreditamos, de nossa parte, que o pão, por si mesmo, é o Corpo de Cristo — como no início, Deus formou o homem à sua imagem, tomando do pó da terra, sem que ninguém possa dizer que ele não é a imagem de Deus, mesmo que não pareça. Do mesmo modo, com o pão do qual Ele disse: "Este é meu corpo", assim nós cremos que é verdadeiramente o Corpo de Cristo.' O ancião disse-lhes: 'Enquanto eu não for convencido pela coisa em si, não estarei completamente convicto.' Então eles disseram: 'Vamos rezar a Deus sobre este mistério por toda a semana e acreditamos que Deus vai nos revelar isto.' O ancião ouviu isso com alegria e rezou nessas palavras: 'Senhor, vós sabeis que não é por malícia que eu não creio e, de maneira que eu não erre por ignorância, revelai isto a mim, Senhor Jesus Cristo.' Os dois homens voltaram às suas celas e rezaram também a Deus, dizendo: 'Senhor Jesus Cristo, revelai esse mistério a esse homem, de modo que ele creia e não perca sua recompensa.' Deus ouviu suas preces. Ao final da semana, eles vieram à igreja no domingo e se sentaram todos os três no mesmo tapete, o ancião no meio. Em seguida, seus olhos se abriram e, quando o pão foi colocado na mesa sagrada, aparecia-lhes uma criança pequena, sozinha. E, quando o sacerdote estendeu a mão para partir o pão, viram um anjo descer do céu com uma espada e servir o sangue da criança no cálice. Quando o padre partiu o pão em pedacinhos, o anjo também cortou a criança em pedaços. Quando se aproximaram para receber os sagrados elementos, o ancião, sozinho, recebeu um pedaço da carne sangrenta. Vendo isto, ficou com medo e gritou: 'Senhor, eu creio que isto é vosso Corpo e este cálice, vosso Sangue.' Imediatamente, a carne que ele segurava em suas mãos se tornou pão, de acordo com o mistério, e ele o tomou, dando graças a Deus. Em seguida, os dois homens lhe disseram: 'Deus conhece a natureza humana e sabe que o homem não pode comer carne crua, e é por isso que Ele mudou Seu Corpo em pão e Seu Sangue em vinho, para aqueles que o recebem na fé.' Em seguida, deram graças a Deus pelo ancião, porque Ele não permitiu que o mesmo perdesse a recompensa pelo seu trabalho. Então, todos os três retornaram com alegria para suas celas."



Dizia-se que Pai Helladius passou vinte anos em sua cela, sem sequer elevar os olhos para ver o telhado da igreja.


Pai Epifânio acrescentou: "Um homem que recebe algo de outro por causa de sua pobreza ou sua necessidade tem aí sua recompensa; e, porque ele se envergonha, quando ele paga, ele o faz em segredo. Mas o oposto faz Deus: Ele recebe em segredo, mas paga na presença dos anjos, dos arcanjos e dos justos."


Era dito do Pai Agathon que alguns monges vieram procurá-lo, tendo ouvido falar de seu grande discernimento. Desejando ver se ele perdia a paciência, disseram-lhe: "Você não é aquele do qual dizem ser um grande fornicador e um homem orgulhoso?" "Sim, é verdade", ele respondeu. Eles continuaram: "Você não é aquele Agathon que está sempre dizendo bobagens?" "Sou eu." Novamente, eles disseram: "Você não é Agathon, o herético?" Ao que ele replicou: "Eu não sou um herético." Então eles perguntaram-lhe: "Diga-nos, por que você aceitou tudo que atiramos sobre você, mas repudiou este último insulto?" Ele replicou: "As primeiras acusações tomei para mim, pois é bom para minha alma. Mas heresia é separação de Deus. Vejam, eu nada tenho para ser separado de Deus." A este dito, eles ficaram surpresos pelo seu discernimento e retornaram, edificados.


Pai Evágrio disse: "Retirem-se as tentações, e ninguém será salvo."


Um irmão egípcio veio ao Pai Zeno, na Síria, e se acusou diante do ancião sobre suas tentações. Cheio de admiração, Zeno disse: "Os egípcios escondem as virtudes que possuem e acusam-se sem cessar de faltas que eles não têm, enquanto que os sírios e gregos fingem ter virtudes que não possuem e escondem as faltas das quais são culpados."


Numa vila, dizia-se que havia um homem que jejuava tanto que era chamado de "o jejuador". Pai Zeno ouviu falar dele e mandou chamá-lo. Ele veio alegremente. Rezaram e se sentaram. O ancião começou a trabalhar em silêncio. Não conseguindo falar com Pai Zeno, o jejuador começou a se aborrecer. Então ele disse a Pai Zeno: "Reze por mim, Pai, porque desejo ir." O ancião perguntou: "Por quê?" O outro retrucou: "Porque meu coração está como se estivesse em fogo, e eu não sei o que pode ser isso. Pois, em verdade, quando eu estava na vila e jejuava até a noite, nada disso me acontecia." O velho homem lhe disse: "Na vila você alimentava-se através de seus ouvidos. Mas vá embora e, de agora em diante, coma pela nona hora, e o que quer que faças, faça-o em segredo." Tão logo ele começou a seguir o conselho, o jejuador achou difícil esperar até a nona hora. E aqueles que o conheceram diziam: "O jejuador está possuído pelo diabo." Então ele foi contar isso ao ancião, que disse a ele: "Este caminho está de acordo com Deus."


Um dia, Pai Moses disse ao irmão Zacharias: "Diga-me o que devo fazer?" A estas palavras, o último jogou-se no chão aos pés do ancião e disse: "Você está me perguntando, Pai?" O velho homem disse a ele: "Creia-me, Zacharias, meu filho, eu vi o Espírito Santo descer sobre você, e desde então sinto-me inclinado a lhe perguntar." Então Zacharias arrancou o gorro de sua cabeça, jogou-o ao chão e pisoteou-o, dizendo: "O homem que se deixa tratar assim não pode se tornar um monge."


Pai Zeno disse: "Se um homem deseja ser ouvido por Deus rapidamente, antes de rezar por qualquer coisa — mesmo por sua própria alma — quando se elevar e estender suas mãos em direção a Deus, deve rezar de todo o coração por seus inimigos. Através dessa ação, Deus atenderá qualquer coisa que ele pedir."


Pai Gerontius de Petra disse que muitos, tentados pelos prazeres do corpo, cometiam fornicação não em seus corpos, mas em seus espíritos, e, enquanto preservavam a virgindade do corpo, cometiam a prostituição em suas almas. "Então, é bom, meus bem-amados, fazer o que está escrito, e cada um guardar seu próprio coração com todo cuidado possível." (Prov. 4,23)


Um dia, Pai Arsênios consultou um velho monge egípcio sobre seus próprios pensamentos. Alguém notou e disse a ele: "Abba Arsênios, como é que o senhor, com uma educação tão aprimorada em grego e latim, pergunta a um camponês sobre seus pensamentos?" Ele replicou: "Realmente aprendi grego e latim, mas não sei nem ao menos o alfabeto desse camponês."


Pai Elias, o ministro, disse: "O que pode o pecado onde há penitência? E de que adianta o amor onde há orgulho?"


Pai Isaías disse àqueles que começavam bem, colocando-se sob a direção dos santos Padres: "Como a coloração roxa, a primeira tintura nunca se perde." E: "Do mesmo modo que galhos jovens são facilmente envergados para trás e curvados, também é com os iniciantes que vivem em submissão."


Pai Isaías também contou que houve uma ceia, e os irmãos estavam comendo na igreja e falando uns com os outros. O padre de Pelúsia os repreendeu com estas palavras: "Irmãos, aquietem-se. Pois vi um irmão comendo com vocês e bebendo tanto quanto vocês, e sua oração subia até a presença de Deus como fogo."


Pai Isaías também disse: "Quando Deus deseja apiedar-se de uma alma, e ela se rebela, não suportando nada e fazendo sua própria vontade, Ele então permite que ela sofra o que não quer, de modo que volte a procurá-Lo novamente."


Pai Theodore disse: "Se você é amigo de alguém que cai na tentação da fornicação, ofereça-lhe sua mão, se puder, e tire-o disso. Mas, se ele cair na heresia e você não puder persuadi-lo a sair dela, saia de sua companhia rapidamente, para evitar que, no caso de você demorar, você também seja jogado nesse poço."


Um irmão veio procurar Pai Theodore e começou a conversar com ele sobre coisas que nunca tinha posto em prática. Então o ancião lhe disse: "Você ainda não encontrou um navio, nem colocou sua carga a bordo, e, antes mesmo de ter navegado, já regressou à cidade. Faça seu trabalho primeiro; depois, atinja a velocidade que você está fazendo agora."


Pai Theodore de Pherme disse: "O homem que permanece de pé quando se arrepende, não guardou o mandamento."



Referências

NICÓDEMOS, o Hagiorita; MACÁRIO de Corinto (Orgs.). Filocalia dos Santos Padres Népticos. Tradução de José Maria de Almeida. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. 4 v.

NICÓDEMOS, o Hagiorita; MACÁRIO de Corinto (Orgs.). Pequena Filocalia da oração do coração. Tradução de José Maria de Almeida. Petrópolis: Vozes, 1993.


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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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