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Salus in Caritate

Seja um Educando





"Faltando autoridade e respeito, já não há educação possível." (Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, p. 249)

"Depois de longo estudo e de uma laboriosa experiência, indaguei, por meio de uma reflexão mais profunda, quais eram as duas coisas fundamentais na educação e descobri que essas duas coisas são: a autoridade e o respeito." (Ibid., t. I, p. 1)




A AUTORIDADE

Que veremos nesta seção relativa à autoridade? Veremos que todos aqueles que são responsáveis pela educação:

1º – Gozam do direito de mandar e de ser obedecidos;
2º – Têm o dever de exercer esse direito, porque é necessário ao cumprimento de todas as suas obrigações; 
3º – São obrigados a adquirir a ciência prática dos princípios que regulam o exercício desse direito e o cumprimento desse dever.






A autoridade é um direito

"O princípio da autoridade é a base de toda a sociedade bem organizada." (Imbert de Saint-Amand, A Corte de Luís XIV (Mame), p. 58)


Qual é a origem desse direito? Procuremo-la na própria etimologia da palavra autoridade. Autoridade (em latim: auctoritas) vem do substantivo (em latim: auctor). A autoridade é, portanto, uma prerrogativa de autor.

Há alguma autoridade legítima que possa ter outra origem? Não, porque a uma outra autoridade que não fosse a do autor poderiam dizer:

"Quem é o senhor? Não o conheço; não lhe devo nada; devo tudo Àquele que me fez; mas nada devo senão a Ele e àqueles que O representam." (Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, p. 14)


Pelo contrário, ao seu autor responde-se naturalmente:

"És Vós? Aqui estou eu. Vós fizestes-me aquilo que eu sou; acaba a Vossa obra; ordena: eu obedeço." (Ibid.)

Quais são os benefícios desse direito? 

1º – Deus, em primeiro lugar. Ele é o autor necessário e universal; tem, portanto, uma autoridade plena e pessoal sobre todas as coisas. É por isso que todas as criaturas se voltam para Deus para Lhe dizer: "Aqui estamos. Adsumus" (Jó XXXVIII, 35). O próprio homem, o rei da criação, se aproxima do Criador e diz-Lhe: "Tuus sum ego; eu sou Vosso" (Salmo CXVIII, 94). — "Deus meus es tu: in manibus tuis sortes meae. Vós sois o meu Deus; os meus destinos estão nas Vossas mãos." (Salmo XXX, 15)

2º – Os pais, em segundo lugar. Deus fez mais que comunicar-lhes Sua autoridade; deu-lhes algo da própria fonte de toda a autoridade, constituindo-os autores da vida de seus filhos e autores da sua educação, que é como a segunda criação da sua alma. Por isso, os pais são os preceptores naturais, necessários e providenciais de seus filhos.

3º – Todos aqueles em quem Deus e os pais delegaram uma parte da sua autoridade. Os preceptores secundários não têm nenhum direito natural: só o pai e a mãe os podem associar à obra da educação. Não há poder humano que possa impor um preceptor à criança contra a vontade do pai e da mãe; haveria, nesse constrangimento, algo que ofenderia a natureza.

Estes princípios são importantes? Mgr. Dupanloup, o grande educador, considerava-os como tais. Eis o que dizia e repetia às crianças que educava:

"Foi dos vossos pais e de Deus que recebi o direito de vos educar; mas este direito receberam-no os vossos pais de Deus e de Deus somente. A nossa autoridade sobre vós é passageira; dentro em breve, apenas nos ficará a do nosso afeto e do vosso reconhecimento, ao passo que a autoridade dos vossos pais é inalienável. Nós podemos deixar de nos consagrar à vossa educação; mas eles devem ensinar-vos até os derradeiros dias, e vós devereis ouvi-los sempre com respeito, até o fim.

Numa palavra, aqui mesmo, em todo o curso da vossa educação, os vossos pais são os primeiros educadores; e, se receberdes com docilidade os nossos ensinamentos, os vossos pais serão sempre, em toda a vossa vida, os vossos preceptores mais venerados e mais queridos.

Foi por estar tão convencido destes princípios que, um dia, julguei do meu dever expulsar do Seminário Pequeno de Paris um jovem de quem era amigo e que sempre me estimava e respeitava, mas que, no mesmo ano, faltou duas vezes, e gravemente, ao respeito à sua mãe. Não o podendo corrigir, não me julguei no direito de continuar a sua educação." (Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, p. 164)


Qual é a extensão desse direito? Em Deus, esse direito é absoluto; apenas tem por limites os atributos divinos. Mas, para as criaturas, este direito — emprestado em sua origem — é limitado em seu exercício: é circunscrito pela lei de Deus e pelos ditames da verdadeira razão.

Qual é o dever correlativo desse direito? É a obrigação de submissão e obediência por parte daqueles sobre quem esse direito se exerce legitimamente.





A autoridade é uma ciência


Por que se pode dizer que a autoridade é uma ciência? 

Porque o exercício do direito e o cumprimento do dever da autoridade exigem o conhecimento (a ciência) e o respeito de um certo número de princípios. Uns são remotos, outros imediatos: examiná-los-emos sucessivamente.



Os princípios remotos


Quais são os princípios remotos a que está ligada a autoridade? São cinco:

1º - É preciso começar a exercê-la muito cedo. 
2º - É preciso que os pais sejam os primeiros a respeitar a fonte de toda a autoridade: Deus. 
3º - É preciso que os pais apoiem sua autoridade em Deus. 
4º - É preciso que os pais mostrem em tudo um procedimento digno e nobre. 
5º - É preciso que os pais evitem tudo que os possa colocar no mesmo pé de igualdade com os filhos.



1º - É preciso começar muito cedo

"Curva a cabeça de teu filho na sua mocidade" (Eccli.)

Por que é preciso que os pais afirmem muito cedo sua autoridade? 
Porque a experiência ensina que “se a criança não for dominada dos três aos quatro anos, é quase certo que nunca o será.” (F. Nicolay, As Crianças Mal Educadas, p. 140)

Que sucederá se os pais se descuidarem na afirmação da autoridade logo nos primeiros anos dos filhos? A criança cresce: sua independência desenvolve-se com ela; as insubmissões são frequentes; tornam-se escandalosas; sua arrogância é uma vergonha; os pais abrem enfim os olhos e decidem reagir. É muito tarde.

Se o pai e a mãe quiserem usar de rigor, encontram em face deles tal obstinação de resistência que, com receio das consequências, renunciam à luta. Se, apesar de tudo, quiserem impor-se pela força, a criança irrita-se, revolta-se interiormente, procura a causa daquela mudança de atitude, maldiz o lar onde é castigada depois de ter sido mimada: não aceita, nunca aceitará a autoridade.



2º - É preciso que os pais respeitem a fonte de toda a autoridade: Deus

"Que todo o homem seja submisso às autoridades superiores, porque não há poder que não venha de Deus" (S. Paulo, Rom. XIII, 1)

Por que é preciso que os pais respeitem a autoridade? Porque a autoridade é uma: não há a autoridade deste ou daquele; há simplesmente a autoridade; e tudo o que a ofender, seja neste ou naquele superior, enfraquece-a em todos os outros.

E depois, a criança — já tivemos ocasião de notar — é de uma lógica implacável: não se submeterá por muito tempo à autoridade dos pais se eles próprios não se submeterem à autoridade de Deus.

"A autoridade não impõe seu direito quando aqueles que a exercem vivem de maneira diferente da que recomendam aos outros." (Santo Agostinho)



3º - É preciso que os pais apoiem sua autoridade em Deus

"Se o Senhor não edifica a casa, é em vão que trabalham aqueles que a constroem" (Salmo CXXVI)

Por que os pais devem apoiar sua autoridade em Deus? Porque Deus é a única base lógica, imutável e durável da autoridade.

Como farão os pais para convencer a criança da verdade deste ponto de apoio? Evitarão, no exercício da autoridade, toda consideração egoísta ou apaixonada; inspirados sempre na ideia do dever, manifestarão por ele um apreço profundo e afetivo.



4º - É preciso que os pais mostrem em tudo um procedimento digno e nobre

Por que devem os pais demonstrar um procedimento digno e nobre? 

1º - Porque o exercício da autoridade é fácil quando aqueles que são depositários dela merecem estima. Ora, a estima só se obtém pela nobreza, dignidade e virtude. Um domínio de si mesmos, uma firmeza sempre calma, uma atitude virtuosa elevam os pais aos olhos dos filhos, atraem a estima e afirmam a autoridade. Dom Bosco, de Turim, dirigia em passeio, durante um dia, 300 prisioneiros. (J.B. Francesia, Vida de Dom Bosco, p. 158)

2º - Pelo contrário, tudo o que rebaixa o homem — como palavras grosseiras, pragas, excesso na bebida, acessos de cólera etc. — são como pequenos escândalos que fatalmente deprimem a autoridade de quem os comete.

Não há faltas que prejudicam mais gravemente a autoridade dos pais? Podemos apresentar como principais: a mentira e as preferências.

Quais são as formas de mentira, em geral mais abundantes na educação? 
1º - Fazer falsas promessas; 
2º - Iludir a boa-fé; 
3º - Servir-se de flagrantes contradições da verdade. (Nicolay, ob. cit., p. 98 e seg.)

Em que consistem as falsas promessas? 

Em explorar os desejos conhecidos ou supostos da criança, prometendo satisfazê-los se obedecer; e, obtido o resultado, esquecem-se, como por encanto, das promessas feitas… A criança, naturalmente confiante, acaba por se convencer de que zombam dela e abusam da sua credulidade.

Qual é o resultado dessas situações? 

1º - A criança pensa que a mentira não é uma falta, pois sua mãe a emprega constantemente. 
2º - Depois, mais desconfiada por ser sempre enganada, deseja ver o que lhe prometem ou, escandalizada, revolta-se e diz: — “Há quantos anos me prometem recompensas que nunca vejo… Já chega de troça!”

Nada mais insolente — nada mais justo.

Como se ilude a boa-fé da criança? 
Utilizando sua sinceridade para obter docilidade e voltando contra ela própria o ato de boa vontade praticado.

Exemplos: — “Porque fizeste isso muito bem, vou te levar ao cinema.” E leva-se ao dentista.

— “Dá-me teu comboio e verás como o faço manobrar.” E depois: “Agora, não o verás mais!”

Existe algo pior? Sim: servir-se de flagrantes contradições da verdade. Exemplo: para fazer a criança tomar um remédio desagradável — “Oh! não imaginas como isto é bom” — diz a mãe, fingindo provar. A criança, iludida, toma e logo percebe que foi enganada. Isso marca.

Se toma o remédio, pior ainda: à humilhação junta-se a indignação e o desejo de vingança.

Consequências desses métodos odiosos: 

1º - Os pais rebaixam-se a si próprios, fazendo papel de mentirosos.
 2º - Ensinam, com seriedade, a arte de enganar. 
3º - Destruíram, para sempre, a confiança da criança.


São frequentes as preferências? Sim, infelizmente.

Algumas apoiam-se na semelhança física; outras nas qualidades exteriores: graça, inteligência, amabilidade.

Como se manifestam as preferências? 

O preferido tem mais preponderância, é mais acarinhado, poupado de trabalhos, seus desejos são atendidos, defeitos tolerados ou exaltados, é tido como modelo — mesmo sem mérito — e a mãe declara: — “Gosto mais dele que de todos.” — “Vê teu irmão como é bonito, obediente, comportado… É por isso que gosto mais dele. E tu bem o sabes…”

Estragos causados por isso: O preferido torna-se mimado, soberbo, preguiçoso, sensual… Os outros, invejosos e amargurados, desenvolvem ódio.

Sim, ódio. Recordai-vos da história de José, pais e mães imprudentes: foi para vós que essa história se escreveu.


5º - É preciso que os pais evitem tudo o que os coloque no mesmo pé de igualdade com os filhos

"As crianças devem ter por amigos os companheiros, e não os pais e as mães" (Jaubert, Pensamentos)

Por que essa recomendação? 
Porque a igualdade exclui a autoridade.

Liberdades na linguagem, familiaridades, à-vontade nos divertimentos geram igualdade, e isso prejudica a autoridade.


"Adula teu filho, e ele te causará desgostos; brinca com ele e te entristecerás. Não te divirtas a rir com ele: receia que daí venha uma dor e que, por fim, te arrependas." (Eccli. XXX, 9-10)

E quanto aos pensadores de todos os tempos? 

Platão:

"Quando nas famílias domina a igualdade insolente, tudo, até os animais, parece respirar anarquia. O pai teme o filho e este trata o pai como igual. Já não há respeito nem temor. Querem dizer sempre: sou livre." 



E de Bonald:

"Afetos já fora da influência da razão, e uma educação doméstica, mole e sem dignidade, tomaram o lugar das relações de autoridade e submissão entre os pais e os filhos, das quais a geração passada viu, na sua mocidade, os últimos vestígios. Crianças que tinham no espírito ideias de igualdade com seus pais, e no coração, sentimentos de insubordinação contra suas vontades, praticavam o abuso de tratá-los por 'tu' — maneira de falar que, na nossa língua, exprime consciência da sua fraqueza. Não ousavam dominar os filhos pela sua autoridade, aspirando tão somente a serem seus amigos, confidentes e, muitas vezes, cúmplices. Havia, na França, pais, mães, filhos — mas faltava autoridade na família, e a sociedade política foi abalada até os alicerces."




BETHLÉEM, René de. Catecismo da educação. 1. ed. São Paulo: Castela, 2023.


















Quando nos dedicamos à leitura de um livro, uma lição ou uma conferência e, ao mesmo tempo, não conseguimos nos livrar de uma preocupação ou lembrança, de uma paixão ou conflito, ou seja, quando tentamos atender a duas ideias simultaneamente, o rendimento torna-se mínimo e pouco duradouro, enquanto a fadiga atinge o máximo. A luz do entendimento começa a focalizar um tesouro para possuí-lo e desfrutá-lo, mas algum outro objeto, que desperta temor ou uma ideia passional, vai se intrometendo repetidamente, impedindo-nos de usufruir tranquilamente do tesouro em questão.


É como o funcionamento de uma máquina de escrever quando duas teclas são pressionadas ao mesmo tempo: a escrita sai confusa e a máquina se danifica. Da mesma forma, nada esgota mais nosso cérebro do que o esforço simultâneo com ideias parasitas, preocupações e obsessões, ou com agitação e nervosismo. Essa é a principal causa da maioria das exaustões ou esgotamentos nervosos, do “overwork”, como dizem os ingleses. Quinze minutos desse trabalho desordenado cansam mais do que duas horas de perfeita concentração e dificilmente podem ser compensados com um breve descanso. Um dia vivido sob essa tensão não se recupera com uma noite de sono, pois provavelmente teremos dificuldade para conciliá-lo e, ainda que durmamos, o sono será interrompido por sonhos e pesadelos.


Antes, comparamos a concentração àquele que segue diretamente pela rua, sem se desviar para a direita ou para a esquerda, chegando assim ao destino com maior rapidez e menor cansaço. Podemos também comparar quem trabalha com ideias parasitas ao caminhante que, em sua rota, encontra alguém que o empurra ou o arrasta para outro rumo: desta forma, ou nunca chega ao destino, ou só o consegue com grande atraso e muito esforço.


Tampouco haverá paz ou verdadeira satisfação devido à falta de unidade e plenitude; não se encontrará a alegria do ato perfeito, nem o prazer da concentração tranquila, pois não há tempo suficiente para assimilar plenamente o que se recebe, sentir o enriquecimento intelectual e fixá-lo na mente.


Para compreender melhor o mecanismo da divagação mental e da obsessão, podemos representar nossa mente elaboradora de pensamentos por círculos concêntricos. No centro, está o foco da atenção; nele está o objeto que percebemos com clareza e do qual temos plena consciência — no caso, um livro. Ao mesmo tempo, porém, há outras coisas ou ideias não diretamente focalizadas pela atenção, mas das quais temos alguma consciência. Essas podem ser representadas por círculos concêntricos na faixa periférica da atenção, como os objetos localizados nas extremidades da mesa onde trabalhamos: estão apenas de forma indireta e confusa ao alcance de nossa visão enquanto lemos ou escrevemos. Bastará, no entanto, mover o rosto, e eles passarão a estar direta e claramente em nossa visão.


Em determinado momento, uma única ideia, objeto ou conjunto de coisas pode ocupar o centro de nossa atenção; porém, podem haver várias na faixa periférica:


a) com possibilidade de entrar no foco;


b) com maior probabilidade ou tendência a interessá-lo;


c) com verdadeira urgência de conquistá-lo.


A primeira classe de ideias ou objetos — as que têm possibilidade de entrar no foco, mas sem urgência — são as coisas ou experiências mais recentes ou mais repetidas (r), e as mais próximas ou conexas (c).


A segunda classe, com maior probabilidade e tendência, mas sem muita insistência, refere-se às coisas influenciadas pela afetividade (a), interesse (i), prazer ou desprazer.

A terceira classe é composta pelas coisas que têm pressa de ocupar nossa mente, ou seja, aquelas que mais interessam ao “EU”, os desejos e temores intensos. Quando tais grandes desejos ou temores existem, eles lutam arduamente para ocupar o centro de nossa atenção, assediando (obsidere, em latim — daí a origem de “obsessão”).


Nessa batalha implacável para conquistar o centro da consciência, essas ideias obsessivas frequentemente vencem a vontade, que gostaria de permanecer focada no que se está estudando. Elas tomam nossa mente com tal força que nos dão a impressão de seguirmos duas ideias ao mesmo tempo, criando aparentemente o fenômeno da dupla atenção. Contudo, o mais provável é que ocorra uma alternância extremamente rápida de uma ideia para outra.

Este manual prático, destinado a pessoas normais, não busca solucionar casos de atenção anormal derivados de causas profundas do inconsciente, como compulsões ou obsessões. Para esses casos, recomenda-se a consulta com um especialista.

Dessa forma, para evitar essa atenção obsessiva ou assediada, que tanto prejudica o trabalho mental, é necessário primeiro identificar, depois canalizar e moderar razoavelmente, ou mesmo eliminar, quando necessário, os desejos exagerados que nos impulsionam e os temores excessivos que nos deprimem.


Estas são as duas fontes das ideias parasitas:



1. IDEAL EXAGERADO OU EMULAÇÃO EXCESSIVA



Certo dia, apresentou-se a nós um jovem empregado, queixando-se de cansaço cerebral, nervosismo, desânimo e sono agitado. Ele havia se matriculado em quatro matérias na universidade e assistia, todas as noites, a duas aulas. Corria do escritório para os estudos e de sua casa para a universidade, dormia tarde, levantava-se de madrugada e não se permitia diversões nem esportes.

— Não estará você perseguindo um ideal acima de suas possibilidades? — perguntei-lhe. — Quem aspira a 100 e somente pode alcançar 50, ao insistir em ultrapassar esse limite, só o conseguirá com violência e tensão psíquica e neuromuscular.

Arregalou os olhos, como se tivesse descoberto um mundo novo, e respondeu:

— Exato, Padre. Agora entendo minha situação: não devo pretender tanto em tão pouco tempo.




Deixou duas matérias para o ano seguinte e imediatamente recuperou a paz e a alegria. Vemos com frequência jovens que terminaram seus estudos e querem entrar no seminário. Costumam fazer vários cursos ao mesmo tempo. Facilmente lhes sobrevêm o nervosismo e a afobação no estudo: se não conseguirem vencer rapidamente esses dois inimigos de sua tranquilidade, melhor seria que seguissem o curso normal, sob pena de acabarem com esgotamento nervoso. “O modo mais prático de fazer muito é fazer uma coisa de cada vez”, diz Lord Burleigh.


Estando certa vez em uma sala de espera, vi um livro que muito me interessava. Desejando enriquecer-me com seu conteúdo, para mim utilíssimo, percorri-o com ansiedade e rapidez; resultado: fiquei arrasado.


Por que, às vezes, a leitura do jornal nos cansa? É porque, parecendo-nos perda de tempo utilizá-lo com coisas sem importância e querendo, por outro lado, satisfazer nossa curiosidade com notícias, lemo-lo com ansiedade e pressa. Trabalhamos com duas ideias ao mesmo tempo: a notícia que nos interessa e a preocupação de terminar quanto antes. Nossa atividade psíquica não tem unidade e plenitude; não nos deixa felizes e satisfeitos e não só não melhora nossa mente, mas, pelo contrário, enfraquece-a. Quem assim trabalhasse habitualmente, chegaria com rapidez ao esgotamento.


Tal perigo espreita os jovens entusiastas, animados pelo ideal de formar-se com perfeição ou de realizar grandes feitos, sem atentarem para suas limitações em qualidades e tempo.


Muitos jovens religiosos e leigos fervorosos, deslumbrados pela sublimidade da oração, da virtude, do apostolado ou da santidade, se lançam à sua consecução com tensão e nervosismo.




Desejariam consegui-los num átimo ou à força de murros, esquecidos de que todo crescimento é lento e gradual. Encarregados de determinada tarefa ou empresa, vibram com tal intensidade que não descansam e nem afastam a tarefa do pensamento enquanto não a concluem: não têm sossego durante a atividade.


Costuma ocorrer, nesses casos, uma sutil inversão na hierarquia de valores. Pretendem alcançar o êxito do empreendimento (valor humano limitado) e perdem de vista o valor divino da ação, a qual, sendo da vontade de Deus e cumprimento do dever, possui um valor ilimitado. Entre o homem e o humano de um lado, e Deus e o que é divino de outro, há a mesma diferença que existe entre um centavo e um milhão de cruzeiros novos. É por isso que lhes falta a plenitude de satisfação, que viria da certeza de estarem realizando o ideal da Sabedoria Infinita e, com isso, conquistando um tesouro imenso. Por outro lado, sofrem angústias devido à ânsia e pressa de alcançar o resultado humano, no qual não poderão encontrar plena satisfação, já que tal resultado possui apenas um valor limitado e mínimo, como se fosse apenas um centavo.


O remédio será aumentar as possibilidades ou moderar o ideal, o que não significa, necessariamente, deixar de aspirar a grandes feitos, mas apenas dar tempo ao tempo, evitando agir por impulsos irracionais e sem permitir que ideais utópicos nos ofusquem.


Quem está cumprindo seu dever não tem motivo para se apressar em terminar para dedicar-se a outra coisa, pois está realizando o máximo que pode no momento — o que Deus quer dele. Nenhuma outra ocupação terá mais valor ou será mais gloriosa; no máximo, poderá ser equivalente.



Aqui está, provavelmente, uma das causas dos desequilíbrios nervosos de pessoas consagradas a Deus. Inverteram inconscientemente a hierarquia de valores, pelo menos na maneira de sentir e agir.


A segurança e plenitude de sua personalidade, que no noviciado se baseava em sentirem-se amados por Deus e na plena realização do ideal divino, pouco a pouco foi perdendo sua força, e eles começaram a comprazer-se e apoiar-se no êxito humano. Quando, finalmente, este fracassou, devido à enfermidade, velhice ou circunstâncias adversas, também a personalidade desmoronou.


Um professor universitário norte-americano, diante de uma verdadeira montanha de composições que devia corrigir, sentia-se atrapalhado pela interminável tarefa e logo se deixava dominar pela pressa e, em consequência, pelo cansaço. Hoje coloca as composições de modo que não as possa ver e vai tirando uma de cada vez, sem nunca olhar as que restam, e corrige cada uma com tranquilidade, como se nada mais tivesse que fazer. Desse modo, termina a empreitada com naturalidade e sem fadiga.


Aquele que, ao iniciar a leitura de um livro, está com o pensamento nos capítulos que ainda faltam, ou que, ao escrever uma carta, se lembra das outras a que ainda tem que responder, corre o perigo de trabalhar sob a pressão de duas ideias simultâneas e, portanto, com nervosismo e cansaço.


Alguns, quando se apercebem de tal pressa ao ler ou escrever, decidem não fazer nenhuma outra coisa durante um espaço de tempo maior do que o necessário para aquela ocupação, freando automaticamente a pressa, quando a decisão foi sincera; outros cobrem as linhas que se seguem e vão descobrindo-as pouco a pouco; outros ainda, atacando também a raiz orgânica desse nervosismo, relaxam mais os músculos dos olhos e da fronte, diminuindo a tensão muscular.




2. PAIXÃO DESENFREADA 



Certo aluno do Colégio de Belém, de Havana, obtinha, a cada ano, as melhores notas da classe e o primeiro prêmio. Seu pai, que não entendia de educação, para recompensar tamanha aplicação, ao completar o filho quinze anos, deu-lhe, durante as férias, toda sorte de oportunidades para divertir-se. O rapaz aproveitou-as. Quando se reiniciou o curso seguinte, passou a ser um dos últimos da classe. Seus olhos vagueavam pela sala, e os professores procuravam estimulá-lo:


— Não se sente envergonhado, você, que era sempre o primeiro? Estude, trabalhe!


Ele se calava. Até que um dia, quando o incentivavam de novo, rompeu em pranto:


— Padre, disse, vivi durante as férias como um animal e agora não posso pensar em outras coisas.


Perdera a concentração devido ao vício impuro.


Quantos universitários, ao relembrar a antiga lucidez mental e a tenacidade da memória e compará-la com a atual deficiência, confiaram-nos, com lágrimas nos olhos, que tal lhes aconteceu em consequência de excessos sexuais que se transformaram em hábitos!


Com razão diz o profundo e poético Gar-Mar: “Queres possuir entendimento de anjo? Pede primeiro ao céu coração de anjo. Quando o coração é puro como o cristal, os olhos se tornam mais transparentes. Nada desanuvia tanto o entendimento como o perfume dos lírios.”


Não é sem razão que o maior e mais profundo pensador da humanidade foi também denominado, graças à sua pureza, “Anjo das Escolas”.



Tampouco poderá deixar de se cumprir a palavra da Sabedoria Infinita: “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” (Verdade Absoluta).

A moderna endocrinologia ensina que os valiosos elementos elaborados pelas glândulas sexuais são reabsorvidos quando o homem é continente: há reabsorção de 20% de cálcio, 30% de fósforo, além de potássio, magnésio, espermina e colesterina, que atuam beneficamente sobre o sistema nervoso.

O célebre intelectual e político brasileiro Ruy Barbosa atribuía a lucidez de sua inteligência à continência que praticou durante toda a vida.




3- Ideias parasitas depressivas




Se as ideias parasitas impulsivas impedem que nos concentremos, muito maior violência costumam ter as depressivas, como temor, preocupação, insegurança, dúvida angustiante, etc., seja uma tendência vaga de insegurança ou algo concreto, como a perda da saúde, da fortuna, da fama, da vida, ou, pior ainda, algum mal transcendente e eterno, com ou sem fundamento.

Em todos esses casos, será muito difícil concentrar-se enquanto não solucionarmos nossos problemas ou conflitos ou, quando tais problemas são insolúveis, enquanto não atenuarmos a importância exagerada que lhes empresta nossa afetividade. Avaliados em sua justa medida, é preciso aceitá-los plenamente, encontrando felicidade apesar da realidade penosa — que não parecerá tão penosa após racionalização e aceitação.

Em certa capital centro-americana, um estudante nos pediu conselho por não conseguir reter quase nada do que ouvia nas aulas nos últimos seis meses, apesar de anteriormente possuir boa memória. Ele acabou abandonando a universidade. Havia sido impressionado por um amigo preocupado com uma pequena deformidade no rosto. Pouco depois, começou a acreditar que seu riso tinha algo de anormal e essa ideia o assaltava continuamente.

Após dois meses de tratamento, conseguiu superar essa obsessão e recobrou o poder de concentração e a memória, podendo retomar os estudos.

Ele trouxe, então, sua irmã, que havia obtido nota zero na última prova escrita, apesar de saber a lição perfeitamente. Supondo que ela também tivesse insegurança e temor, constatamos que, desde a infância, ela havia testemunhado cenas de violência do pai descontrolado contra a mãe bondosa. De fato, sua insegurança era tão intensa que, ao entrar na sala de exame e ver o ponto escolhido, o medo a dominou e bloqueou sua memória, impedindo-a de lembrar e escrever o que sabia.

Expliquei-lhe como vencer esse sentimento de insegurança, colocando no subconsciente o sentimento contrário, conforme descrito no livro “Controle Cerebral e Emocional”. Ajudei-a a associar a vivência de segurança à do exame que a preocupava. Meses depois, seu irmão me trouxe a notícia esperada: ela havia obtido as melhores notas no exame seguinte.

Quando a insegurança sobre coisas temporais se transforma em obsessão angustiante, pode ser útil consultar um psiquiatra católico, bom católico e bem formado, pois tal estado pode ter origem oculta no subconsciente. Muitas vezes, sua causa está na falta de fé ou na supervalorização do que é terreno, que perde a ordem correta ao ser separado do celestial e eterno.

Sem segurança nos problemas mais cruciais do homem, como sua origem e destino, falta uma base sólida às demais seguranças.

Um retorno aos valores transcendentais, com alguns dias de retiro e meditação sobre esses valores, será o melhor remédio [ver o Livro Meu Retiro].

O psiquiatra Dr. Viktor Frankl [livros aqui], israelita, presidente da Sociedade de Psiquiatria da Áustria e discípulo de Allers, concluiu, após acuradas experiências, que a terça parte das neuroses nos homens modernos resulta da repressão, não do instinto sexual, mas da tendência ao divino e ao destino supremo. Quando perdemos o foco ou suprimimos a visão do que é eterno e divino, o que é humano e temporal assume proporções exageradas.

Se a insegurança transcendente vem de algo que pesa sobre nossa consciência moral, nenhum paliativo ou tentativa de silenciar essa voz interna será eficaz. É necessário enfrentar o problema o quanto antes, reconciliando-se com Deus [no Sacramento da Reconciliação].

A dúvida intelectual em matéria transcendente, como religião, também pode perturbar a paz e profundidade de nossa concentração. É essencial resolvê-la rapidamente, consultando especialistas ou estudando em fontes confiáveis. Já o escrúpulo, outra dúvida obsessiva que às vezes aflige pessoas virtuosas, deve ser tratado com presteza e auxílio combinado de psiquiatria e direção espiritual. (Veja-se “Controle Cerebral e Emocional”.)


Reverendo Narciso Irala, S. J.







Para aprofundamento: Educa-te: Paideia Cristã 
Para aprofundamento: Livro A Mulher Católica: Graça & Beleza (Ana Paula Barros) 



Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia, Graça & Beleza.



PREFÁCIO DO REVERENDO PADRE F. W. FABER 


Foi em 1846 ou 1847, em São Wilfrido, que estudei pela primeira vez a vida e o espírito do venerável Grignion de Montfort. Hoje, mais de quinze anos depois, posso dizer que aqueles que o tomam por mestre, dificilmente acharão um santo ou um escritor ascético que mais lhes cative a inteligência por sua graça e seu espírito. Não o podemos ainda chamar santo; porém o processo de sua beatificação está tão propiciamente adiantado que não devemos ter muito que esperar para vê-lo colocado em nossos altares. Poucos homens, no século XVIII, trazem em si mais fortemente gravados os sinais ·de homem da Providência, do que esse novo Elias, missionário do Espírito Santo e de Maria Santíssima. 

Toda a sua vida foi uma tal manifestação da santa loucura da cruz, que os seus biógrafos são concordes em classificá-lo com são Simeão Salus e são Felipe Neri. Clemente XI fê-lo missionário apostólico na França, para que ele empregasse a vida em combater o jansenismo, tão cheio de perigo para a salvação das almas. Será difícil achar, depois das epístolas dos apóstolos, palavras tão ardentes como as doze páginas da sua "Prece" pelos missionários de sua Companhia. Recomendo-a a todos os que encontram dificuldade em conservar, no meio de numerosas provações, o fogo primitivo do amor pela salvação das almas. Encontra-se esta bela "Prece" no fim do volume.

Grignion de Montfort era ao mesmo tempo perseguido e venerado em toda parte. A soma de seus trabalhos é, como a de santo Antônio de Pádua, verdadeiramente incrível e inexplicável. Escreveu alguns tratados espirituais, que embora conhecidos há pouco tempo, já têm exercido influência notável na Igreja, e estão chamados a influência muito maior no futuro. Suas prédicas, seus escritos, sua conversação eram impregnados de profecias e de visões antecipadas das últimas eras da Igreja. 

Novo São Vicente Ferrer, adianta-se, como se estivesse nos dias precursores do juízo final, e proclama-se portador, da parte de Deus, de uma mensagem autêntica: mais honra, conhecimento mais vasto, amor mais ardente a Maria Santíssima, e anuncia a união íntima que ela terá com o segundo advento de seu Filho. Fundou duas Congregações religiosas, uma de homens, outra de mulheres, ambas muito prósperas. E, entretanto, morreu com 43 anos, em 1716, tendo apenas dezesseis anos de sacerdócio. A 12 de maio de 1853, foi promulgado, em Roma, o decreto que declara os seus escritos isentos de todo erro que pudesse servir de obstáculo à sua canonização. 

Neste trabalho sobre a verdadeira devoção à santíssima Virgem, escreveu ele estas palavras proféticas: "Vejo claramente no futuro animais frementes que se precipitam com furor para estraçalhar com os dentes diabólicos este pequeno escrito e aquele de quem se serviu o Espírito Santo para escrevê-lo; ou para sepultá-lo, ao menos, no silêncio de um armário, afim de que não veja a luz". Apesar disso, prediz, ao mesmo tempo, a aparição e o sucesso do livro. Cumpriu-se tudo à risca. O autor morrera em 1716, e só em 1842 foi descoberto, como por acaso, este tratado, por um dos sacerdotes da sua Congregação, em Saint-Laurent-sur-Sévre. O superior de então pôde atestar que o manuscrito era do venerável fundador e o autógrafo foi enviado a Roma, afim de ser examinado no processo de canonização. 

Com certeza, os que vão ler este livro já amam a Deus e desejariam amá-lo ainda mais; todos desejam alguma coisa para a sua glória: a propagação de uma boa obra, a vinda de melhores tempos, o sucesso de uma devoção; um empregou durante anos todos os esforços para vencer um defeito particular e não o conseguiu; outro tem pedido com lágrimas a conversão de seus pais e amigos, e está admirado de que, apesar de suas lágrimas, tão poucos dentre eles se tenham convertido à fé; este se entristece por não ter bastante devoção; aquele se aflige por ter que carregar uma cruz que lhe parece muito pesada para a sua fraqueza, enquanto outro encontra no seio da família perturbações e infelicidades domésticas que lhe parecem incompatíveis com a obra de sua salvação; e para todas essas tristezas a oração parece trazer tão pouco alívio! 

Qual é, pois, o remédio que lhes falta? Qual o remédio indicado pelo próprio Deus? É, segundo as revelações dos santos, uma dilatação imensa da devoção à Santíssima Virgem; mas, reflitamos bem, o imenso não admite restrições nem limites. Aqui, na Inglaterra, nossa Senhora não é bastante pregoada e conhecida. A devoção que lhe consagram é fraca, escassa, mesquinha, transviada pelos escárnios da heresia. 

Dominada pelo respeito humano e pela prudência carnal, desejaria fazer da verdadeira Maria uma Maria tão pequena que os protestantes se pudessem sentir à vontade junto dela. Sua ignorância da teologia tira a Maria toda a vida e dignidade; ela não é, como deve ser, o caráter saliente da nossa religião; não tem fé em si mesma. E é por esta razão que Jesus .não é amado, que os hereges não são convertidos, que a Igreja não é exaltada; almas que poderiam ser santas, desfalecem e degeneram; os sacramentos não são frequentados como o deveriam ser; as almas não são evangelizadas com o entusiasmo do zelo apostólico; Jesus não é conhecido, porque Maria é deixada no esquecimento; perecem milhares de almas, porque Maria delas está distante. 

É esta sombra indigna e miserável, à qual ousamos dar o nome de devoção à Santíssima Virgem, que é a causa de todas estas misérias, de todos estes males, de todas estas omissões, de toda esta tibieza. Entretanto, segundo as revelações dos santos, quer Deus expressamente uma devoção mais vasta, mais extensa, mais sólida, uma devoção muito diferente da atual, para com sua Mãe santíssima. Sou de opinião que não há obra mais excelente, mais eficaz para se conseguir este fim, do que a simples propagação desta devoção particular do venerável Grignion de Montfort. 

Basta apenas que uma pessoa experimente para si esta devoção; em breve, a surpresa que lhe causarão as graças que ela traz consigo, assim como as transformações que produzirá em sua alma, convencê-la hão de sua eficácia, quase incrível aliás, como meio para conseguir a salvação das almas e a vinda do reino de Jesus Cristo! Oh! se Maria fosse ao menos conhecida, não haveria frieza para Jesus! Oh! se Maria fosse ao menos conhecida, quão mais admirável seria nossa fé, como seriam diferentes as nossas comunhões! Oh! se Maria fosse ao menos conhecida, quanto mais felizes, mais santos, menos mundanos seríamos, como nos tornaríamos imagens vivas de nosso Senhor e Salvador, seu diletíssimo e diviníssimo Filho!

Eu mesmo traduzi o tratado todo, o que me deu muito trabalho; e fui escrupulosamente fiel. Tomo ao mesmo tempo a liberdade de avisar o leitor de que com uma só leitura do livro não o poderá compreender a fundo. 

Acha-se neste livro, se assim ouso dizer, o sentimento de um não sei quê de inspirado e sobrenatural, que vai sempre em aumento, à medida que nos aprofundamos em seu estudo. Além disto, não se pode deixar de experimentar, depois de lê-lo repetidas vezes, que nele a novidade parece nunca envelhecer, a plenitude nunca diminuir, o fresco perfume e o fogo sensível da unção nunca se dissipar ou enfraquecer. 

Digne-se o Espírito Santo, o divino Zelador de Jesus e de Maria, conceder uma nova benção a esta obra na Inglaterra; queira ele consolar-nos dentro em ·breve com a canonização desse novo apóstolo e ardente missionário de sua Esposa diletíssima e imaculada, e mais ainda pelo pronto despontar dessa gloriosa era da Igreja que deve ser a gloriosa era de Maria. 

F. W. FABER
Sacerdote do Oratório 
No dia da apresentação de nossa Senhora. 
1862. 






"Meu Filho quer estabelecer no mundo a Devoção ao Meu Imaculado Coração".
"...muitas almas vão para o inferno pois não tem quem reze e se sacrifique por elas..."
"Por fim o Meu Imaculado Coração Triunfará"



Existe um plano traçado pelo Senhor para que não sejamos tragados pela fumaça de Satanás, a Devoção ao Imaculado Coração de Maria. Um desejo já decretado pelo Sagrado Coração de Jesus e que se cumprirá.



Mas o que seria essa Devoção?

Segundo a vidente de Fátima, Irmã Lúcia, trata-se de uma entrega total de nós mesmos a Nossa Senhora.

Exatamente, nessa frase da Santa Virgem esta explicito que Jesus quer estabelecer no mundo que todos se entreguem completamente ao Coração Imaculado de Sua Santa Mãe.

Se é desejo de Jesus quem impedirá? Quem impedirá que entremos na Arca da Nova Aliança, Maria Santíssima?

Essa entrega total é feita com perfeição na Total Consagração à Santíssima Virgem pelo método de São Luis Grignion de Montfort.

A Santa Escravidão de Amor a Jesus por Maria, é uma prática antiga, autorizada e indulgenciada por diversos Papas.  

No entanto, qual seria o resultado se muitos se consagrassem a Santa Virgem?

Nós vivemos numa "cultura do pecado". Em Fátima nossa Senhora mostra o Inferno aos pequenos, a pequena Jacinta disse que as almas condenadas pareciam "gotas de água num dia de chuva". Isso a 100 anos atrás.. como estaria a visão do Inferno?

Nossa Senhora diz que "muitas almas se perdem por não ter quem reze e sacrifique por elas". 

Quando você se consagra a Santíssima Virgem, pelo Método de São Luís Maria Grignion de Montfort, você realiza uma entrega plena e perpétua de todos os seus bens espirituais, suas orações e sacrifícios, sua vida e coração... seu tesouro espiritual.

Nós possuímos um tesouro espiritual, que é composto pelo valor de nossas boas obras (de acordo com o amor que colocamos na prática de cada uma delas) este tesouro é composto por uma parte transferível e uma intransferível.

A parte intransferível é composta pelo valor meritório de nossas boas obras.
A parte transferível é composta pelo valor impetratório e indulgencial de nossas boas obras.




































DISTRAIR-SE é ir para diante e para trás; perder o fio da ideia; perder-se no acessório. A lâmpada se desvia do tesouro. Quando seguimos uma ideia com a interposição de outras desnecessárias ou opostas, sofremos distrações. Distrair-se é ficar adormecido diante do objeto que devemos considerar. É como a lâmpada que estava sendo dirigida a um tesouro, mas que se desvia para outro ponto antes que possamos possuí-lo e usufruí-lo. É tratar de chegar a um ponto, mas nos perdermos noutra direção, atraídos por outros objetos. É permitir que estímulos inoportunos afastem o centro de atividade da alma do ideal desejado.

Enquanto seguíamos o livro ou a dissertação, corremos atrás de detalhes insignificantes; ou, então, algo ao nosso redor ocupou o centro de nossa consciência e “perdemos o fio”. É preciso reencontrá-lo, voltar ao caminho novamente. Chegaremos ao término, embora mais tarde e com maior cansaço. Em um resumo descritivo, diríamos: Resultado da distração — RD: eficiência decresce; fadiga aumenta. Isto quer dizer que haverá menor eficiência em relação à concentração e maior fadiga. Com isso, é claro, a saúde mental não se beneficia, e não sentiremos satisfação profunda. Isso ocorre porque é necessário recomeçar o período de ajustamento, além de aumentar a atividade espasmódica, provocando maior desgaste e impedindo a serenidade e o rendimento de uma atenção continuada, pacífica e profunda.

Os raios difusos do sol não conseguem atear fogo em um pedaço de pau seco; concentrados, porém, por meio de uma lente, podem produzir um grande incêndio. Do mesmo modo, um estudante que não sabe prestar atenção não progride nem sente satisfação no estudo, parecendo uma nulidade intelectual; no entanto, uma vez que aprenda a concentrar-se, poderá chegar a ser um gênio e causar admiração por sua eficiência.

Com frequência, chegam até nós estudantes, profissionais ou homens de negócio pedindo orientação e remédios para lidar com o fraco rendimento mental e as contínuas distrações.


A Eis um remédio: antes de tudo, é necessário verificar se as distrações geralmente giram em torno de um tema ou polo fixo, pois, neste caso, a causa e o remédio devem ser buscados na vida afetiva. Deve-se descobrir esse polo nos desejos ou temores exagerados que roubam a atenção de modo obsessivo. Este tema será tratado no Capítulo III: “Atenção obsessiva”.

Se não existe tal foco afetivo de atração ou repulsão, mas as distrações vão, como as borboletas, de flor em flor, ou se assemelham a uma fita cinematográfica que reproduz as lembranças do dia, é necessário verificar se essa atenção deficiente é generalizada ou ocorre somente em relação a alguns assuntos ou determinadas matérias. Neste último caso, se o estudante, por exemplo, tem perfeita concentração em certas matérias, mas não em outras, a causa pode ser objetiva, ou seja, o problema pode estar no professor ou no livro, e não depender exclusivamente do estudante, a não ser que tenha medo ou aversão às matérias em questão.





CAUSAS OBJETIVAS DE DISTRAÇÃO 


Caminho e fim desconhecidos. Estrada cortada ou piso sem escada. Caminho desagradável e penoso. Caminhar sem descanso.


O conferencista ou o livro tratam de levar-nos ao reino da sabedoria, ao palácio das ciências, mas, às vezes, o caminho ou o método que empregam é deficiente:

1- Caminho e fim desconhecidos: Se desde o início não nos indicam o término de nossa viagem concretamente, ou seja, o tema que vão desenvolver e o método que vão seguir para explicá-lo, facilmente nossa mente divagará. Não saberíamos por onde iríamos. Quando nos convidam a uma excursão, ficamos mais satisfeitos se nos apresentam antecipadamente as atrações do local escolhido e as belezas do percurso. Caso nos percamos, ainda poderíamos chegar lá por nossos próprios meios. O mesmo ocorre com dissertações ou conferências.

Ao começar a leitura de um livro ou artigo, pergunte-se: de que trata? Como o tema é desenvolvido? As respostas geralmente estão no título, subtítulo ou índice. Livros, conferências ou dissertações tornam-se mais fáceis de seguir quanto mais claros e organizados forem os pontos introduzidos.


2- Caminho interrompido ou piso sem escada: Se o tema estiver acima de nossa preparação, ou em sua exposição forem mencionados conceitos necessários, mas desconhecidos, sem explicações suficientes, é natural que a mente abandone o percurso. Quem nos leva de algo conhecido a algo ignorado, sem os devidos esclarecimentos intermediários, é como alguém que tenta nos conduzir a um andar superior, retirando a escada.

Durante nossos estudos, não deixemos lacunas ou partes intermediárias importantes sem compreendê-las bem.


3- Caminho desagradável e tedioso: Se a exposição for monótona e cansativa, sem exemplos práticos ou comparações que a tornem interessante, se não houver variedade, criatividade ou ideias marcantes, facilmente será gerada distração. Além disso, prevenções ou antipatias em relação ao expositor podem estender-se ao conteúdo, dificultando o aprendizado. Sabe-se que onde entra o desgosto, qualquer trabalho se torna mais pesado.


4- Caminhar sem descanso: Para evitar este último obstáculo e não prolongar a tensão de atenção, é importante intercalar subtítulos e esquemas no texto. Segundo o Dr. Arthus, a atenção voluntária, nos adultos, dura no máximo vinte minutos. Após esse período, não se obtém concentração sem esforço ou desgaste.

Por exemplo, quem dirige por uma estrada estreita e sinuosa em alta velocidade deveria, a cada 15 ou 20 minutos, reduzir a tensão, diminuindo a velocidade. Do mesmo modo, ao lidar com explicações difíceis, busque pausas ou alívios, como exemplos e anedotas. Quando lemos algo árido, podemos complementar a leitura procurando imagens ou casos práticos para tornar o aprendizado mais leve e significativo.

Em aulas ou conferências, recomenda-se aliviar a atenção com digressões, comparações ou humor a cada quinze ou vinte minutos, especialmente se o público for formado por crianças ou se tratar de temas abstratos.




CAUSAS SUBJETIVAS DA DISTRAÇÃO 


Debilidade orgânica. Vida dissipada. Falta de treinamento. Esgotamento psicológico. Falta de interesse.


Examinadas as causas objetivas da distração, apontamos também as causas subjetivas:

1- Debilidade orgânica: Caso o estudante enfrente problemas como enfermidades, convalescença, carência de vitamina B ou má alimentação, é natural que tenha dificuldade em fixar a atenção. A solução está em fortalecer a saúde, adotar uma alimentação balanceada e combater avitaminoses. Embora existam casos raros de pensadores brilhantes com saúde debilitada, essa não é a regra.


2- Vida dissipada: Quem distribui sua energia em muitos interesses ao longo do dia — esportes, política, vida social, entretenimento — tende a ter dificuldades para concentrar-se, pois esses pensamentos competem por sua atenção mesmo durante atividades mentais.


O grande pensador e escritor, prêmio Nobel, Doutor Alexis Carrel, em seu livro “O homem, este desconhecido”, luta para que, na vida agitada moderna, se formem ilhotas de solidão nas quais os intelectuais possam isolar-se dos demais para concentrar-se em seus estudos. Eis suas palavras:

“A vida moderna se encontra em oposição com a vida do espírito. Os homens de ciência esgotam inutilmente suas forças e perdem boa parte de suas atividades na busca de um retiro para seus estudos. Ainda não se cogitou de formar, em meio à agitação do mundo, ilhotas de solidão, onde a meditação se torne possível. E esta inovação se impõe cada dia de maneira mais imperiosa.”

As grandes empresas norte-americanas, General Motors, General Electric, etc., estão realizando esta sugestão em benefício de seus pesquisadores, erguendo custosos edifícios longe da cidade, rodeados de parques amenos.

Pouco depois, acrescenta Carrel: “É muito difícil que os filhos do mundo moderno gozem das vantagens que oferece a vida interior. Esta vida, segredo verdadeiramente oculto, escondido, desconhecido, incomunicável (‘impartageable’), é considerada por muitos educadores como um pecado. Contudo, continua sendo a fonte de toda originalidade e de todos os grandes empreendimentos. Só ela permite ao indivíduo conservar sua personalidade no meio do vulgo. Assegura-lhe a liberdade de espírito e o equilíbrio do sistema nervoso em meio à desordem do mundo moderno.”



3- Falta de treinamento. Nenhuma das anteriores causas de distração se podia apontar num aluno interno que, apesar de não perder um minuto de estudo, era o último da classe. Julguei que lhe faltava treinamento; chamei-o à parte para estudarmos juntos. Ele costumava ler toda a lição quase sem fixar-se, nem entendê-la. Tornava a ler e reler até poder repeti-la como um papagaio. Expliquei-lhe que, para se aprender alguma coisa, é preciso começar por entendê-la.

Mandei-o ler em voz alta o primeiro parágrafo; tirei-lhe o livro e pedi que fizesse um resumo do que lera; não havia fixado nada na mente. “Vamos ver de novo.” Agora, sabendo que teria que fazer o resumo, teve a atenção comandada pela vontade e repetiu-me uma das ideias principais.

“Escreva esta ideia em uma frase ou em uma palavra que a recorde.” Leu o segundo parágrafo; tirei-lhe o livro e escreveu o segundo resumo; e do mesmo modo o terceiro e o quarto. Afinal, com esses resumos, pôde recitar a lição, mas ainda muito incompleta.

Mandei-o então ler de novo o primeiro parágrafo para ver se faltavam ideias importantes.

— Sim, disse-me alvoroçado, aqui falta uma. — Está adiante ou atrás do que você escreveu? — Adiante. — Então escreva-a adiante. — Aqui há outra, para trás.

Escreveu atrás e foi assim completando o resumo. Ao terminá-lo, recitou-me perfeitamente a lição, com o auxílio dos resumos. Daí a recitá-la sem eles foi uma questão de poucas repetições. A partir de então nunca mais foi o último e terminou felizmente o curso.

Quantos talentos ocultos brilhariam como diamantes se alguém os polisse, ensinando-os a concentrar a atenção! Um dos melhores métodos será formular a si mesmo perguntas sobre a matéria e tratar de encontrar as respostas na leitura; também é bom método ler, lápis em punho, fazendo resumos.

E, a quem me objetasse que assim nunca terminaria sua lição, diria como os romanos: “Festina lente”: indo devagar, chegarás depressa, pois não precisarás de tantas repetições. Custar-te-ão os primeiros ensaios, mas, à medida que o teu talento sintético se for desenvolvendo, fá-lo-ás com rapidez e experimentarás o prazer de possuir muitas verdades em ricas sínteses.


4- Esgotamento Patológico. O “surmenage”, ou estafa cerebral, costuma aparecer por causa da atenção anormal; por exemplo: atenção ao que estudamos e ao problema que nos preocupa; ou por causa de uma atenção prolongada ou sem suficiente descanso; ou por trabalhar habitualmente com pressa e ansiedade, insatisfeitos com o que fazemos e preocupados com o êxito; ou por exigir de nossas faculdades e tempo rendimento maior do que seria razoável.

Chegará o momento em que a dor, peso, calor ou tensão na cabeça ou ao redor das órbitas nos incomodará ou preocupará; agitar-se-ão as ideias tristes e deprimentes; tornar-se-á difícil concentrar a atenção durante meia hora ou ainda menos; sentiremos cansaço.

Então o remédio ideal seria não pensar em nós nem nestas coisas molestas, mas concentrar-nos totalmente, com tranquilidade e alegria, no que fazemos, pois toda sensação de fadiga tende a aumentar ao se pensar nela, e ao contrário diminui e até desaparece quando aplicamos toda nossa atenção, tranquila e alegremente, em outra coisa.

Como, porém, conseguir esse esquecimento de si? No começo ajudará viajar ou mudar de ambiente ou ocupação, ou aprender a descansar através de sensações conscientes e, em seguida, praticar os Exercícios de Concentração que o Dr. Vittoz empregava em Lausanne.



Remédios práticos 

Não somente em casos de esgotamento, mas ainda no caso de simples divagação mental, poderiam ser úteis esses exercícios, como nos confessaram muitos que os praticaram conforme os expomos em nosso livro “Controle Cerebral e Emocional”, Cap. III-B. Eis alguns:

a) Concentração visual externa. Se, ao traçar um ponto, penso unicamente nele, terei a concentração de um instante de duração. Se o prolongar em linha reta, sem pensar em outra coisa, conseguirei uma concentração de vários segundos. Com os nervos e músculos sossegados, traçarei no ar com o dedo figuras amplas sem solução de continuidade, procurando segui-las com atenção e naturalidade.

b) Concentração visual interna. Às vezes será conveniente dedicar-se a fazer tais desenhos mentalmente, sem interferência da mão, sobre um tabuleiro imaginário, e exercitar-se assim vários dias.

c) Concentração auditiva. A senhora Z. sentia grande dificuldade em prestar atenção a discursos ou conferências e, quando tentava concentrar-se, ficava tão nervosa e constrangida que várias vezes teve de abandonar a sala. O barulho também a impedia de dormir à noite e, no escritório ou em casa, não podia ler nem escrever quando outros falavam ou tocavam piano perto dela. Exercitou-se durante vários dias em captar voluntariamente diversos ruídos durante o dia, depois em acompanhar o som do relógio dizendo e ouvindo mentalmente “tic-tac” dez vezes, sem distrair-se; no segundo dia chegou a 15 e no quarto a 20 e mais vezes sem pensar em outra coisa. Não empregava neste exercício mais de cinco minutos cada vez, embora o repetisse umas oito vezes por dia. Conseguida esta concentração auditiva bastante satisfatória, pôde passar a prestar atenção voluntariamente a uma leitura ou discurso, primeiro durante dez, depois quinze ou mais minutos, sem medo e sem distrações. Se estas sobrevinham, seu único cuidado era fixar de novo a atenção no que estava sendo dito. Ao fim de um mês, estava curada.

d) Concentração na leitura. Fixar nossa atenção no que lemos até o primeiro ponto. Descansar então alguns instantes com sensações conscientes. Continuar a ler até o segundo ponto e assim até completar uma página, repetindo este exercício até três vezes por dia.

Quando o cansaço sobrevém mais durante uma leitura do que ao escutar uma narração ou discurso, é muito provável que a causa esteja na tensão e nervosismo dos olhos. Veja-se a explicação e remédios no capítulo X, “Olhos ativos e passivos”.





Reverendo Narciso Irala, S. J.



Para aprofundamento: Educa-te: Paideia Cristã 
Para aprofundamento: Livro A Mulher Católica: Graça & Beleza (Ana Paula Barros) 



Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia, Graça & Beleza.











"Todo dom excelente e toda a dádiva perfeita vem do alto, desce do Pai das luzes" (Tg. 1, 17). Mais ainda, a Luz procede do Pai, difunde-se copiosamente sobre nós e com o seu poder unificante nos atrai e nos conduz ao alto. Faz-nos retornar à unidade e à deificante simplicidade do Pai, congregados nEle. "Porque dEle e para Ele são todas as coisas", como diz a Escritura.


Invoquemos, pois, a Jesus, a Luz do Pai, "a luz verdadeira que vindo a este mundo, ilumina a todo homem" (Jo. 1, 9), "por quem obtivemos acesso" (Rom. 5, 2; Ef. 2, 18; 3, 12) ao Pai, à luz que é fonte de toda a luz. Fixemos o olhar o melhor que pudermos nas luzes que os Padres nos transmitem pelas Sagradas Escrituras. Tanto quanto nos seja possível, estudemos as hierarquias dos espíritos celestes conforme a Sagrada Escritura nos revelou de modo simbólico e anagógico. Fixemos atentamente o olhar imaterial do entendimento na luz transbordante mais que fundamental, que se origina do Pai, fonte da Divindade. Por meio de figuras simbólicas, ilustra-nos sobre as bem-aventuradas hierarquias dos anjos. Elevemo-nos, porém, sobre esta profusão luminosa, até o puro Raio de Luz em si mesmo.

De fato, este Raio de Luz não perde nada de sua própria natureza, nem de sua íntima unidade. Ainda quando atua e se multiplica exteriormente, como é próprio de sua bondade, para enobrecer e unificar os seres que estão sob a sua providência, permanece, no entanto, interiormente estável em si mesmo, absolutamente firme, em imóvel identidade. Dá a todos, na medida de suas forças, poder para elevar-se e unir-se a Ele segundo sua própria simplicidade.

Porém este Raio divino não poderá iluminar-nos se não estiver espiritualmente velado na variedade das sagradas figuras, acomodadas ao nosso modo natural e próprio, segundo a paternal providência de Deus.


Pelo que nossa sagrada hierarquia foi estabelecida por disposição divina imitando as hierarquias celestes que não são deste mundo. Mas as hierarquias imateriais se revestiram de múltiplas figuras e formas materiais para que, conforme a nossa maneira de ser, nos elevemos analogicamente a partir destes sinais sagrados até a compreensão das realidades espirituais, simples, inefáveis. Nós, os homens, não poderíamos de nenhum modo elevar-nos por via puramente espiritual a imitar e contemplar as hierarquias celestes sem a ajuda de meios materiais que nos guiem conforme requer nossa natureza.

Qualquer pessoa, ao refletir, dá-se conta de que a beleza aparente é sinal de mistérios sublimes. O bom odor que sentimos manifesta a iluminação intelectual. As luzes materiais são imagens da copiosa efusão da luz imaterial. As diferentes disciplinas sagradas correspondem à imensa capacidade contemplativa da mente. As ordens e os graus daqui debaixo simbolizam as harmoniosas relações do Reino de Deus. A recepção da Sagrada Eucaristia é sinal da participação em Jesus, e o mesmo sucede com os seres no Céu que de modo transcendente recebem os dons que nos são dados simbolicamente.

A fonte da perfeição espiritual nos forneceu imagens sensíveis que correspondem às realidades imateriais do Céu, pois cuida de nós e quer fazer-nos à sua semelhança. Deu-nos a conhecer as hierarquias celestes; instituíu o colégio ministerial de nossa própria hierarquia à imitação da celeste, tanto quanto era possível, em seu divino sacerdócio. Revelou-nos tudo isto por meio das santas alegorias contidas nas Sagradas Escrituras, para elevar-nos espiritualmente desde o sensível e conceitual, através dos símbolos sagrados, até o cume simplíssimo daquelas hierarquias celestes.





Antes de tudo, creio dever expor qual é o principal objeto de toda a hierarquia, e em que sentido é proveitosa aos seus membros. Em seguida, exporei as hierarquias celestes, segundo o que nos revelou a Sagrada Escritura. Por último, descreveremos sob que formas sagradas a Escritura representa as ordens celestes, pois através destas figuras devemos elevar-nos a uma perfeita simplicidade.

Não podemos imaginar, como faz o vulgo, aquelas inteligências celestes com muitos pés e rostos, de forma parecida a bois ou como leões selvagens. Não possuem bicos curvos de águias, nem asas ou penas de pássaros. Não as imaginemos como rodas de fogo pelo céu, tronos materiais nos quais senta-se a Divindade (Dn. 7, 9; Ap. 4, 2), cavalos de várias cores (Zac. 1, 8; 6, 2; Apoc. 6, 1-9), capitães brandindo espadas (Jos. 5, 13) ou qualquer outra forma em que as Santas Escrituras no-las tenham representado em variedade de símbolos. A teologia utiliza-se de imagens poéticas ao estudar estas inteligências, que carecem de figuras. Porém, como fica dito, o faz em atenção à nossa própria maneira de entender; serve-se de passagens bíblicas colocadas ao nosso alcance, em forma anagógica, para elevar-nos mais facilmente ao espiritual.


Estas figuras se referem a seres tão espirituais que não podemos conhecê-los nem contemplá-los. Figuras e nomes de que se valem as Escrituras são inadequados para representar tão santas inteligências. De fato, poderia objetar-se que se os teólogos tivessem querido dar forma corporal ao que é absolutamente incorpóreo, deveriam ter começado com os seres tidos como os mais nobres, imateriais e transcendentes, em vez de se utilizarem de múltiplas formas terrenas, ínfimas, para aplicá-las a realidades divinas, que são totalmente simples e celestes. Quem sabe o façam com intenção de elevar-nos e não de rebaixar o celeste com imagens inadequadas. Na realidade, é uma ofensa indigna aos poderes divinos e induz nossa inteligência ao êrro, confundindo-a com estas composições profanas. Alguém poderia facilmente imaginar que acima dos céus haveria uma multidão de leões e de cavalos, que os louvores seriam mugidos, que ali voariam bandos de pássaros, ou que os céus estariam cheios de outros gêneros de animais, matérias vis e semelhantes desatinos que descrevem, até o absurdo, a corrupção e as paixões.

Porém se alguém investigar a verdade, colocará em evidência a sabedoria das Escrituras. Nelas há um providencial cuidado em não ofender os poderes divinos quando representam com figuras as inteligências celestes. Com a mesma solicitude evitam que nos afeiçoemos desordenadamente aos símbolos que contenham algo de baixeza e vulgaridade. Quanto ao mais, há duas razões para que se represente com imagens o que não tem figura e para dar corpo ao incorpóreo. Primeiramente, porque somos incapazes de elevar-nos diretamente à contemplação mental. Necessitamos de algo que nos seja conatural, metáforas sugestivas das maravilhas que escapam ao nosso conhecimento. Em segundo lugar, é muito conveniente que para o vulgo permaneçam veladas, com enigmas sagrados, as verdades que contém sobre as inteligências celestes. Nem todos são santos e a Sagrada Escritura adverte que não convém a todos conhecer estas coisas (I Cor. 8, 7; Mt. 13, 11; Lc. 8, 10).

Em relação à inconveniência das imagens bíblicas, ou ao uso de comparações tão baixas para significar hierarquias tão dignas e santas, esta objeção pode ser respondida dizendo que a revelação divina apresenta-se de duas maneiras.


Uma procede naturalmente por meio de imagens semelhantes ao que significam. A outra emprega figuras dessemelhantes até a total desigualdade e ao absurdo. Ocorre algumas vezes que as Escrituras, em seus misteriosos ensinamentos, representam a adorável santidade de Deus "Verbo" (Jo. 1, 1), "Inteligência" (Is. 40, 13) e "Essência" (Ex. 3, 14). Fazem ver que a racionalidade e a sabedoria são atributos convenientes a Deus, a quem devemos c onsiderar real subsistência e causa verdadeira da subsistência de todos os seres. Mais ainda, representam-no como Luz (I Jo. 1, 15) e chamam-no Vida (Jo. 11, 25).

Estas formas sagradas certamente mostram mais reverência e parecem superiores às representações materiais. Não são, entretanto, menos deficientes que as outras em relação à Deidade, que está mais além de qualquer manifestação do ser e da vida. Nenhuma luz pode expressá-la e toda razão ou inteligência não chega nem a assemelhar-se-lhe.

Ocorre por isto que as mesmas Escrituras enaltecem a Deidade com expressões totalmente dessemelhantes. Chamam-na de invisível, infinita, incompreensível e de outras coisas que dão a entender não o que é, mas o que não é. Esta segunda maneira, segundo o meu entender, é muito mais própria ao falar de Deus pois, como a secreta e sagrada tradição nos ensina, nada do que existiu se parece com Deus e desconhecemos sua supraessência invisível, inefável, incompreensível (Col. 1, 15; I Tim. 1, 17; Heb. 11, 27).

Posto que a negação parece ser mais apropriada para falar de Deus, e a afirmação positiva é sempre inadequada para o mistério inexpressável, convém melhor referir-se ao invisível por meio de figuras dessemelhantes. Pelo qual, as Sagradas Escrituras, longe de desprezar as hierarquias celestes, enaltecem-nas com figuras totalmente dessemelhantes. Deste modo, realmente damos-nos conta de que aquelas hierarquias, tão distantes de nós, transcendem toda materialidade.

Quanto ao mais, não creio que nenhuma pessoa sensata deixe de reconhecer que as dessemelhanças servem melhor que as semelhanças para elevar nossa mente ao reino do espírito. Figuras muito nobres poderiam induzir alguns ao êrro de pensar que os seres celestes são homens de ouro, luminosos, radiantes de beleza, suntuosamente vestidos, inofensivamente chamejantes, ou sob outras formas como estas com que a teologia tem representado as inteligências celestes (Dan. 10, 5; Mt. 28, 3).

Para evitar estes mal entendidos entre pessoas incapazes de elevar-se acima da beleza que os sentidos percebem, piedosos teólogos, sabia e espiritualmente, condescenderam com o uso de símbolos dessemelhantes. Agindo assim eles frearam nossa tendência natural ao material e o desejo de satisfazer-nos preguiçosamente com imagens de baixa qualidade. Com isto favoreceram a elevação da parte superior da alma, que sempre anela as coisas do alto. De fato, a tosquidade destes símbolos serve de estímulo para que até os afeiçoados às coisas terrenas não possam julgar verossímil nem possível a semelhança destas coisas triviais com as celestes. Por outro lado, em todas as coisas há algo de beleza, como diz corretamente a Escritura: "Tudo é muito bom" (Gen. 1, 31).


Todas as coisas podem favorecer a contemplação. Conforme dizia antes, as dessemelhanças com o mundo podem aplicar-se a estes seres que são simultaneamente inteligíveis e inteligentes. Tenha-se, porém, sempre em conta a diferença que há entre o que cai sob o domínio dos sentidos e do próprio entendimento. Assim, nas criaturas irracionais a cólera nasce de um impulso apaixonado de movimento irascível, mas deve-se entendê-lo de modo diverso quando se trata de quem desfruta da razão. Neste caso a cólera é, creio eu, a firme atuação da razão e a capacidade de perseverar com tenacidade em princípios santos e imutáveis.

De modo semelhante a concupiscência. Nos irracionais é uma busca ilimitada de bens materiais sob o impulso do instinto ou do costume de afeiçoar-se ao passageiro, apetite irracional dominador que induz os viventes a possuir qualquer coisa prazerosa aos sentidos. Porém quando o aplicamos ao ser inteligente, devemo-lo entender de outro modo. Dizemos que sentem desejos, mas isto significa o anelo divino da Realidade imaterial, que está além de toda razão e de toda a inteligência. É o firme e constante desejo de contemplar pura e impassivelmente a Supraessência. Fome espiritual insaciável e verdadeira comunhão com a luz imaculada e sublime, de esplêndida e inefável beleza. Intemperança que será o ardor perfeito, inquebrantável, manifesto no anelo constante da beleza divina, a total entrega ao verdadeiro objeto de todo desejo.

Dizemos que são irracionais os animais e os objetos, porque falta-lhes a razão; aos objetos, falta-lhes também a sensação. Porém quando o dizemos dos seres imateriais, intelectuais, entende-se sob o aspecto da santidade. São criaturas que transcendem em muito a nossa razão corporal discursiva, como a inteligência ultrapassa as sensações materiais. Portanto, podemos servir-nos retamente de figuras, tomadas inclusive da matéria vil, em relação aos seres celestes. Finalmente, as coisas terrenas subsistem graças à Beleza absoluta que contém dentro de sua condição material. Pela matéria podemos elevar-nos até os arquétipos imateriais. Porém deve-se ter cuidado especial para usar devidamente as semelhanças e dessemelhanças. Não se pode estabelecer uma relação de identidade mas, considerando a distância entre os sentidos e o entendimento, acomodar-se-ão segundo corresponda a cada qual.


Veremos que os teólogos místicos servem-se disto para falar das hierarquias celestes e também para explicar os mistérios da Deidade. Às vezes celebram-na com imagens muito eloqüentes; por exemplo, quando dizem Sol de Justiça (Mal. 4, 2; Sab. 5, 6), Estrela Matutina que se levanta até a Inteligência (II Pe. 1, 19; Apoc. 22, 16), Luz de fulgor intelectual (I Jo. 1, 5; Mt. 5, 14). Em outros casos utilizam-se de expressões mais terrenas. Comparam Deus com o fogo que arde sem queimar (Ex. 3, 2; Sab. 18, 3; Ex. 13, 21), com a água que comunica plenitude de vida, que metaforicamente chega às entranhas e forma rios inesgotáveis (Jo. 4, 14; Jo. 7, 38; Prov. 18, 4). Utilizam também semelhanças de coisas ordinárias, como ungüento suave (Cant. 1, 3; Is. 61, 1; Jer. 1, 5; Atos 10, 36), pedra angular (Is. 28, 16; Ef. 2, 20). Chegam até a comparações de animais. Atribuem a Deus propriedades do leão, da pantera, do leopardo, e do urso devorador (Is. 31, 4; Os. 5, 14; 13, 7). Acrescente-se o que parece mais abjeto e impróprio de tudo, a forma de verme (Sl. 22, 6), com a qual representaram a Deus admiráveis intérpretes dos mistérios divinos.

Deste modo os que conhecem sobre Deus, intérpretes sob misteriosa inspiração, não misturam o Santo dos santos com coisas perfeitas e profanas. Utilizam uma figura dessemelhante para que as realidades divinas não se confundam com as imundas nem os fervorosos admiradores dos símbolos divinos se apeguem a tais figuras como se tivessem uma existência real. Assim, com verdadeiras negações e com dessemelhanças, últimos reflexos divinos, honram a Deus como é devido.

Nada, portanto, há de indigno em representar os seres celestes, como ficou dito, por meio de semelhanças ou dessemelhanças inadequadas ao objeto.

Em minha investigação ordinária esta dificuldade não me teria estimulado a chegar a uma explicação exata das virtudes sagradas se não tivesse tido problemas com as imagens da Escritura, disformes em relação aos anjos. Minha mente não podia satisfazer-se com este inadequado imaginário. Esta inquietação me conduziu a ir mais além da representação material, passando santamente pelas aparências e através delas elevando-me a realidades que não são deste mundo.

Porém seja suficiente o que já foi dito sobre as imagens materiais e impróprias com que as Escrituras Sagradas se referem aos anjos. Devo explicar agora o que entendo por hierarquia e que vantagens oferece aos que dela participam. Que nesta exposição o meu guia seja Cristo, meu Cristo, se é lícito assim falar, o inspirador de tudo o que podemos conhecer sobre a hierarquia, e tu, meu filho, deves seguir as recomendações de nossa tradição hierárquica. Escuta devotamente estas sagradas e inspiradas considerações e esta doutrina te servirá de iluminação. Guarda as santas verdades no recôndito de tua alma. Preserva sua unidade diante da multiplicidade do profano (I Tim. 6, 20) pois, como diz a Escritura, não é lícito atirar aos porcos a pura, brilhante e esplêndida harmonia das pérolas espirituais (Mt. 7, 6).

Fonte: São Dionísio Areopagita: A Hierarquia Celeste, C. 2. (cristianismo.org.br)
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Ana Paula Barros

Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.

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