A história da moda e a modéstia (transcrição de aula)
Transcrição da aula: A história da moda e a modéstia ministrada pela professora Ana Paula Barros em 29 de julho de 2017 e similar em 14 de junho de 2018. Sugerimos fortemente a leitura complementar do Livro Modéstia: Beleza e Santa Ordem e também do livro Graça e Beleza.
Texto de transcrição atualizado e revisado em 2026.
É importante discutirmos este tema para estabelecer uma conexão entre a história da moda, as mudanças na vestimenta, principalmente feminina, que será o foco de hoje, e as transformações sociais e ideológicas. Também abordaremos a dessensibilização que a moda pode gerar ao nos adaptarmos e nos vestirmos de maneiras que podem estar ligadas a ideologias ou pensamentos implementados na sociedade ao longo dos anos.
Ao longo da história da moda, você perceberá pontos importantes. Falarei pouco, mas apresentarei muitas imagens, e talvez você chegue a conclusões claras sobre o impacto da moda na sociedade atual. Por fim, veremos as questões espirituais necessárias para compreender, em um nível mais profundo, a importância da modéstia em contraposição às mudanças e influências que a moda exerce.
A história da moda que vamos abordar começa nos anos 1920. Antes disso, as mudanças foram mínimas: o vestido feminino era sempre aquele típico das novelas e séries de época, com grandes saias, saiotes e corpetes. A partir da década de 1920, com a Primeira Guerra Mundial (28 de julho de 1914 a 11 de novembro de 1918), iniciam-se transformações significativas.
Nos anos 1920, houve uma predileção pelo glamour, pelas joias e pela elegância, marcada pela ascensão de Coco Chanel, uma das estilistas mais aclamadas até hoje. Chanel revolucionou a forma de se vestir: os saiotes foram eliminados, as roupas ganharam caimento mais fluido, as cores tornaram-se mais escuras e ocorreu um aumento no uso de joias e brilhantes.
Na década de 1930, a elite artística buscou introduzir peças de alfaiataria no guarda-roupa feminino. Marlene Dietrich, por exemplo, popularizou o uso de calças de alfaiataria em fotos. Contudo, esse estilo não teve grande aceitação entre mulheres comuns, permanecendo restrito ao meio artístico. De modo geral, as roupas femininas ainda se assemelhavam às dos anos 1920, mas foram simplificadas pela escassez de tecidos durante a Segunda Guerra Mundial (1º de setembro de 1939 a 2 de setembro de 1945).
Nos anos 1940, o glamour retornou. As mulheres voltaram a ter acesso a uma variedade de tecidos, e as roupas ganharam detalhes em botões e acabamentos, embora ainda conservassem certa sobriedade. Já nos anos 1950, houve uma mudança significativa nas cores, refletindo inquietações sociais e comportamentais transmitidas pela moda.
Na década de 1960, houve uma intensificação no uso das cores e o período foi marcado pelo início do movimento feminista, que concentrou a inquietação feminina na primeira onda. O Concílio Vaticano II também discutiu o papel da mulher na sociedade, e essas transformações se refletiram na moda. Nos anos 1970, o movimento hippie trouxe saias longas, estampas florais e a filosofia do “paz e amor”.
Nos anos 1980, a moda sofreu uma grande virada: roupas brilhantes, paetês, dourado, maquiagens fortes e sobrancelhas marcadas, com traços animalescos, expressavam inquietação, desejo de liberdade e certa agressividade. Já nos anos 1990, surgiram estilos que ainda vemos hoje: minissaias, roupas justas ou muito largas, refletindo desleixo e descuido, mas também luxúria, sexualização e despudor. Até os anos 1950, medidas de pudor e decoro eram respeitadas; depois disso, a moda passou a expressar agressividade e promiscuidade, em sintonia com o movimento feminista.
Nos anos 2000, consolidou-se a tendência da moda de gênero fluido, com roupas femininas usadas por homens e vice-versa, sem adaptações. Nos desfiles, os modelos passaram a ser apresentados sem definição de sexo, algo incomum em décadas anteriores, quando havia separação clara entre moda masculina e feminina.
Assim, percebemos que a moda imprime ideias e ideologias, dessensibilizando a sociedade para determinados conceitos. A moda de gênero fluido, por exemplo, dessensibiliza para a ideologia de gênero em um momento em que essa discussão está cada vez mais acirrada.
Vamos entender como a moda funciona na prática. Em primeiro lugar, é importante lembrar que o termo moda se refere às coleções lançadas nas temporadas primavera-verão e outono-inverno. Os estilistas criam suas coleções e as apresentam em desfiles. Grandes estilistas e marcas de prestígio estreiam suas criações em eventos importantes, como a São Paulo Fashion Week ou outras semanas de moda ao redor do mundo. Essas coleções normalmente indicam as tendências para aquela temporada.
Hoje, temos uma gama enorme de estilistas, jornalistas e influenciadores digitais que atuam quase como militantes, defendendo ideologias nas quais eles e as marcas que representam acreditam. Essas ideologias são inseridas nas coleções, levadas às passarelas de grande prestígio e, posteriormente, reproduzidas por marcas menores, chegando ao mercado popular nas lojas.
O público, em geral, não percebe esse processo. Quem compra uma peça acredita que a tendência foi criada por um estilista que sabia exatamente o que estava fazendo. No entanto, é importante lembrar que essas tendências são planejadas com anos de antecedência. Por exemplo, marcas como a Nike já sabem qual será o modelo de tênis produzido daqui a cinco ou dez anos, porque isso já está programado. O mesmo ocorre com todas as grandes marcas: elas já têm a ideia, e talvez não a coleção completa, mas possuem uma direção definida para suas futuras criações.
Quando essas tendências chegam ao mercado popular, a maioria das pessoas não tem escolha diante do que é imposto nas prateleiras das lojas. Isso é o que chamamos de moda.
Depois, temos o modismo. O modismo surge, por exemplo, quando um ator ou personagem de novela ou série usa uma roupa específica que ganha prestígio e visibilidade por um tempo. A novela termina, o ator sai de cena e aquele prestígio desaparece, fazendo com que a moda do momento passe. Ao contrário do que muitos pensam, não são os atores, filmes ou séries que criam a moda. Na verdade, a moda é impressa neles, e eles são usados como massa de manobra para levar essas tendências ao grande público sem nenhum filtro, já que as pessoas não são treinadas para reconhecer essas influências.
Por último, temos o estilo. O estilo é algo que perdura ao longo do tempo, diferente da moda e do modismo. O estilo é para sempre. Você adota um estilo caracterizado por determinados tipos de peças usadas em algum período da história da moda e que refletem traços de personalidade, escolhas e atributos pessoais. Quando falamos sobre moda, o ideal é descobrir qual estilo mais combina com sua personalidade, para que você possa expressar quem realmente é.
A moda tem uma questão muito importante: desde a infância, a roupa ajuda na identificação e compreensão da própria identidade e das diferenças entre as escolhas pessoais e as dos outros. É uma forma de distinção de sexo, personalidade e comportamento, contribuindo para a integração social do indivíduo.
Entramos agora em outro ponto importante: a tentativa das ideologias de se infiltrarem no mercado da moda e moldarem nossa identidade. Nossa Senhora deseja que suas filhas sejam libertas da indústria da moda e de seu plano silencioso de escravidão. As pessoas não têm direito de escolha a menos que entendam como a moda funciona e saibam que podem decidir de maneira diferente.
A moda é uma forma de interação com grupos, criando uma identidade pessoal e social. Por isso, é uma ferramenta poderosa para as ideologias. Ao imprimir certas formas de vestir, elas criam grupos, formas de pensar e união em torno daquele pensamento refletido pela vestimenta. Isso facilita a dessensibilização para ideias contrárias às questões morais da sociedade, como a ideologia de gênero.
Esse é um trabalho de longo prazo. As pessoas que atuam com esse tipo de pensamento sabem que precisam criar rachaduras no muro da moral cristã na sociedade para que possamos receber essas ideias e ideologias de maneira mais eficaz. Uma das armas usadas para isso é a moda.
Precisamos lembrar como a modéstia se relaciona com o caminho da virtude. Em primeiro lugar, a virtude é para todo cristão. Não é apenas para um grupo específico, não é só para quem se consagrou a Nossa Senhora, nem para determinadas pessoas. A virtude é para todos os cristãos. Em segundo lugar, a virtude é uma prática. Não adianta dizer “eu vivo a virtude da paciência internamente” sem praticá-la externamente. É necessário demonstrar a paciência nas ações. O mesmo vale para a modéstia.
A ideia de viver a modéstia apenas internamente é falha, tanto em relação à virtude como um todo quanto, principalmente, à própria modéstia. É impossível que isso seja realidade. Devemos lembrar que a virtude é uma prática no bem, é um ato.
Quando falamos de uma virtude, falamos também de outras virtudes da mesma família. A modéstia tem uma família. A mãe da modéstia é a temperança. A temperança nos dá a capacidade de equilibrar as coisas internamente, harmonizando emoções e pensamentos. É uma virtude difícil, mas fundamental, que age como filtro para tudo o que existe dentro de nós.
A temperança, como virtude mãe, tem “filhos”. O primeiro é o pudor. O pudor se desdobra na modéstia, como se fossem virtudes gêmeas. Ele se relaciona com a expressão do que existe dentro de nós, funcionando como um véu que protege nosso interior das coisas externas e guarda o coração. Quando bem trabalhado, o pudor se desdobra na modéstia, que cuida da exposição do corpo. A modéstia se relaciona diretamente com a vestimenta e com o cuidado em se vestir de maneira que não exponha indevidamente o corpo. Portanto, a modéstia é exterior por natureza; não pode ser vivida apenas internamente.
A terceira filha da temperança é a castidade. A castidade age como guardiã da afetividade e da sexualidade. Temos a temperança governando o interior, o pudor velando pensamentos e sentimentos, a modéstia cuidando do corpo físico e a castidade cuidando da sexualidade e da afetividade, impedindo que sejam expostas inadequadamente.
Quando cultivamos uma virtude, puxamos outras junto. Quem busca viver a castidade precisa cultivar a modéstia, não expondo o corpo indevidamente, e também o pudor, guardando pensamentos e sentimentos. Isso nos leva ao entendimento de que precisamos viver todas as virtudes em harmonia.
Cada santo foi exemplar em uma virtude específica, mas não negligenciava as demais. O cultivo de uma virtude leva ao aprimoramento das outras. O mesmo acontece com a modéstia: ao praticá-la, percebemos a necessidade de cuidar do comportamento, das palavras e das ações.
O Catecismo ensina que o pudor leva à discrição, à modéstia e à paciência. São três aspectos importantes: discrição no comportamento, modéstia na vestimenta e paciência no trato com as pessoas. A proposta é exigente, mas o caminho das virtudes é recompensador.
É radical compreender como a modéstia se insere no caminho das virtudes. Quando percebemos que a modéstia é mais do que um modismo dentro da Igreja, isso se torna claro. Se fosse uma tendência, com todos se vestindo modestamente, seria benéfico, pois a prática da modéstia leva à colheita de bons frutos e desperta outras virtudes.
A modéstia está intimamente ligada ao grande número de consagrações feitas a Nossa Senhora. Muitas pessoas foram conduzidas por Ela à prática da modéstia, aprendendo formas de comportamento e vestimenta adequadas. Quando alguém se aproxima de Nossa Senhora, aprende sobre modéstia e sobre atitudes corretas. Por isso, a consagração a Nossa Senhora tem uma relação direta com a modéstia. O aumento das consagrações despertou grande interesse pela prática da modéstia, justamente em um tempo em que a ideologia de gênero e a moda da promiscuidade estão em alta, ambas ofensivas ao Coração de Jesus. Nossa Senhora não permitiria que seus filhos caíssem em tais práticas.
Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).

4 comments
Como sempre, Ana nos presenteando com seus textos edificantes! Que Deus continue te abençoando.
ResponderExcluirOlá Ana tudo bem? Amo suas postagens e sempre que posso te acompanho,elas me ajudaram muito a entender mais sobre mim, e me esclarece muitas vezes coisas que o Senhor a tempos quer que eu entenda, obrigada bjinhos. Fique com Deus.
ResponderExcluirOlá Ana tudo bem? Amo suas postagens e sempre que posso te acompanho,elas me ajudaram muito a entender mais sobre mim, e me esclarece muitas vezes coisas que o Senhor a tempos quer que eu entenda, obrigada bjinhos. Fique com Deus.
ResponderExcluirVocê está me ajudando a crescer na fé com seus posts. Deus a abençoe !
ResponderExcluirOlá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.