Literato Católico: Santa Perpétua de Cartago e a Literatura Cristã Primitiva

by - segunda-feira, janeiro 12, 2026






Contexto

Santa Perpétua de Cartago (†203) é uma das figuras mais significativas do cristianismo primitivo, tanto pelo testemunho de sua fé quanto pela singularidade de seus escritos. Nascida em família nobre, foi presa em Cartago durante a perseguição de Septímio Severo, aos vinte e dois anos, já casada e mãe de um lactente. Junto a Felicidade, sua escrava grávida, e outros catecúmenos, enfrentou o cárcere e posteriormente o martírio no anfiteatro da cidade. O registro de sua experiência encontra-se nas Atas da Paixão de Perpétua e Felicidade.


Septímio Severo (145–211 d.C.) foi imperador romano entre 193 e 211 e fundador da dinastia Severa. Nascido em Léptis Magna, na África Proconsular, ascendeu ao poder em meio à crise política conhecida como “ano dos cinco imperadores”. Consolidou sua posição derrotando rivais como Pescênio Níger e Clódio Albino, estabelecendo um governo marcado pela centralização do poder e pela valorização do exército. Entre suas principais medidas estão o aumento do soldo dos legionários, a permissão para que militares se casassem e a intensificação da disciplina, o que garantiu lealdade mas elevou os custos do Estado.


No campo administrativo, reduziu a influência do Senado e reforçou a autoridade imperial, além de promover reformas jurídicas e obras públicas, especialmente em sua cidade natal. Conduziu campanhas militares contra os partas, ampliando o domínio romano na Mesopotâmia, e na Britânia, onde faleceu em 211, em Eburacum, atual York, na Inglaterra. Vale lembrar que a cidade de York, além de ter sido um importante posto militar romano, acabou, com o tempo, ganhando espaço também na literatura inglesa. Ela aparece em romances vitorianos e clássicos: em Nicholas Nickleby, de Charles Dickens, parte da trama se passa no condado de Yorkshire (York está dentro de Yorkshire) e inclui referências à cidade; em Jane Eyre, de Charlotte Brontë, York surge como ponto geográfico citado; e em The Tenant of Wildfell Hall, de Anne Brontë, a ambientação no norte da Inglaterra reforça sua presença. O Jardim Secreto (1911), de Frances Hodgson Burnett, dá certa importância ao sotaque de Yorkshire. Mas voltemos...



O governo de Septímio Severo também ficou marcado pela repressão religiosa: proibiu conversões ao cristianismo e ao judaísmo, o que resultou em martírios célebres, como o de Santa Perpétua e Santa Felicidade em Cartago. Embora o Império Romano fosse conhecido por integrar ao seu panteão divindades de povos conquistados, a proibição de conversões ao cristianismo e ao judaísmo sob Septímio Severo tinha fundamentos políticos e sociais. Diferentemente das religiões politeístas, que conviviam sem conflito, essas tradições monoteístas afirmavam a exclusividade de um único Deus e rejeitavam os cultos públicos considerados essenciais para a pax deorum, a paz com os deuses que legitimava o poder imperial. Ao recusar sacrifícios e cerimônias cívicas, cristãos e judeus eram vistos como desleais ao Estado e como ameaça à coesão religiosa e política do Império. Após sua morte, foi sucedido por seus filhos Caracala e Geta, e recebeu do Senado a honra de ser "divinizado". A prática da divinização dos imperadores romanos, conhecida como consecratio, consistia na elevação oficial de um governante falecido ao status de divindade, transformando-o em divus e integrando-o ao culto público. Esse processo, sancionado pelo Senado, tinha função política e religiosa: reforçava a legitimidade da dinastia, perpetuava a memória do imperador e consolidava a ideia de continuidade entre poder humano e ordem divina. No caso de Septímio Severo, após sua morte em 211, o Senado o proclamou divino, garantindo-lhe culto oficial e inserindo sua figura no panteão imperial.






Obra: A Passio


A Passio Sanctarum Perpetuae et Felicitatis, conhecida como Atas da Paixão de Perpétua e Felicidade, é um dos textos mais notáveis da literatura cristã primitiva. Produzida no início do século III, a obra apresenta uma estrutura singular: parte escrita pela própria Perpétua, parte atribuída a seu companheiro Saturo e, por fim, uma edição final realizada por um redator anônimo que afirma ter sido testemunha ocular dos acontecimentos.

Do ponto de vista literário, o texto se destaca por sua pluralidade de vozes narrativas. A seção inicial, atribuída a Perpétua, possui caráter autobiográfico e confessional, aproximando-se do gênero do diário espiritual. Nela, a mártir descreve sua prisão, os diálogos com o pai que implorava que renunciasse à fé, e sobretudo suas visões místicas. Essas visões apresentam forte simbolismo bíblico e escatológico: Perpétua vê uma escada que conduz ao céu, guardada por um dragão, e interpreta a subida como metáfora da vitória sobre o mal e da entrada na glória eterna.

A segunda parte, atribuída a Saturo, reforça o caráter coletivo da obra, mostrando que o martírio não era apenas experiência individual, mas comunitária. Saturo narra suas próprias visões e confirma a esperança na salvação, criando uma espécie de diálogo espiritual entre os mártires. Por fim, o redator anônimo acrescenta a descrição da execução pública no anfiteatro, conferindo ao texto uma dimensão histórica e testemunhal.


Literariamente, a obra pode ser analisada sob três aspectos principais:

  • Autobiografia: Perpétua é uma das primeiras mulheres da Antiguidade a deixar um relato pessoal escrito. 
  • Visões e simbolismo: As imagens oníricas e alegóricas apontam uma espiritualidade enraizada na esperança escatológica (que significa: "últimas coisas"). O texto aproxima-se da literatura apocalíptica (que vem de apokálypsis: desvelamento, revelação), mas com forte marca pessoal.
  • Estrutura narrativa híbrida: A combinação de diário, visões e relato histórico cria um gênero literário único.

Do ponto de vista teológico, as Atas revelam a tensão entre os vínculos familiares e a fidelidade a Cristo. O diálogo de Perpétua com seu pai é emblemático: ela recusa abandonar a fé, mesmo diante da súplica paterna e da responsabilidade materna. 

Em termos de recepção, a obra foi amplamente difundida em latim e grego, influenciando a espiritualidade cristã posterior. Para a crítica literária, trata-se de um texto que inaugura uma tradição de escrita feminina na Igreja, em que a experiência pessoal se transforma em testemunho universal.

Assim, a Passio não deve ser lida apenas como documento histórico, mas como obra literária e espiritual, capaz de revelar a profundidade da fé e a riqueza da expressão simbólica de uma jovem mãe que, ao escrever sua própria paixão, eternizou sua voz na memória da Igreja.

You May Also Like

0 comments

Olá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.