O Jeito Harvard de Ser Feliz (Shawn Achor): felicidade e estado interior

by - quinta-feira, agosto 03, 2023





Existem livros que apresentam ideias revolucionárias. Outros apresentam ideias conhecidas, mas conseguem organizá-las de forma tão clara que acabam alcançando milhares de leitores. O Jeito Harvard de Ser Feliz, de Shawn Achor, pertence mais ao segundo grupo.

O autor, professor de Harvard, analisa o desempenho dos estudantes da universidade, seus objetivos, hábitos e expectativas. O resultado é uma obra que se tornou um best-seller ao defender uma tese simples: o estado interior de uma pessoa influencia profundamente sua capacidade de aprender, trabalhar, perseverar e encontrar felicidade.

Para quem possui alguma formação católica ou já leu autores da tradição clássica, muitas das conclusões do livro não chegam a ser surpreendentes. Ainda assim, é interessante observar como pesquisas contemporâneas acabam redescobrindo, por outras vias, verdades que já eram conhecidas há séculos.

O aspecto que mais me chamou a atenção durante a leitura foi a insistência do autor naquilo que eu chamaria de estado interior: emoções, pensamentos, disposições habituais e modo de interpretar a realidade.

Nesse ponto, o livro me fez recordar um problema que percebo em parte da atual intelectualidade católica. Muitas vezes existe grande interesse por debates, controvérsias e diagnósticos, mas pouca atenção à vida interior. Falta silêncio, recolhimento, contemplação e, principalmente, uma orientação constante para as soluções em vez de um foco exclusivo nos problemas.

Como ensina o Padre Sertillanges:


"Querem compor uma obra intelectual? Comecem por criar em seu interior uma zona de silêncio, um hábito de recolhimento, uma vontade de desapego e despojamento, que os deixem disponíveis para a obra... sem esta disposição das faculdades mentais não farão nada ou nada que valha."

Curiosamente, embora por caminhos diferentes, Shawn Achor parece chegar a conclusões semelhantes.

Um dos pontos centrais do livro é a crítica ao foco excessivo nos aspectos negativos da realidade. O autor observa que nossa cultura, nossas instituições e até mesmo parte da produção acadêmica tendem a concentrar sua atenção nos problemas. Por isso afirma:


"Você pode passar a vida inteira estudando a gravidade sem aprender a voar."

E acrescenta:


"O padrão de manter foco no negativo permeia não apenas nossas pesquisas e instituições de ensino como também a nossa sociedade."


A observação é particularmente interessante porque aponta para algo que muitos experimentam no cotidiano: aquilo que recebe nossa atenção frequente acaba moldando nossa percepção da realidade.

Segundo o autor:


"O objeto ao qual dedicamos nosso tempo e focamos nossa energia mental pode de fato se transformar na nossa realidade."


Outro tema recorrente na obra é a importância dos relacionamentos humanos. Ao analisar estudantes altamente talentosos, Achor percebeu algo curioso: diante do estresse, muitos deles abandonavam justamente aquilo que mais poderia ajudá-los.

Como escreve:

"Mentes brilhantes algumas vezes fazem as coisas menos inteligentes possíveis."


Ele observa que os estudantes frequentemente negligenciavam sua rede de apoio, apesar de numerosos estudos apontarem que os relacionamentos sociais constituem um dos principais fatores de proteção contra o sofrimento emocional, o esgotamento e a queda de desempenho.

Essa é uma conclusão particularmente relevante para quem vive em ambientes altamente competitivos. Frequentemente tratamos os relacionamentos como um obstáculo à produtividade, quando podem ser justamente um dos elementos que tornam o trabalho sustentável.

O livro também apresenta diversas reflexões sobre felicidade. Entre elas, a lista das emoções positivas mais recorrentes:


"Alegria, gratidão, serenidade, interesse, esperança, orgulho, divertimento, inspiração, maravilhamento e amor."

Um dos exemplos mais interessantes utilizados pelo autor envolve um estudo realizado com freiras católicas. Ao analisar diários escritos décadas antes, pesquisadores encontraram uma relação entre o conteúdo emocional positivo dos relatos e a longevidade das religiosas. A conclusão do estudo reforçou a ideia de que existe uma conexão significativa entre o modo como interpretamos a vida e nossa saúde ao longo do tempo.


Segundo Achor:

"Procurar constantemente o negativo no mundo implica um custo muito alto."


Nesse sentido, uma das frases mais interessantes do livro é a citação de William James:


"A minha experiência é o que concordo em dar atenção."



Talvez essa seja uma das ideias mais importantes do texto. Não porque a realidade possa ser criada pela vontade, mas porque nossa percepção da realidade é profundamente influenciada pelaquilo que decidimos observar.

O mesmo princípio aparece quando o autor afirma:


"Nós tendemos a não perceber o que não estamos procurando."

Por isso, diante das adversidades, sua proposta não consiste em negar os problemas, mas em desenvolver a capacidade de encontrar oportunidades ocultas neles.

Como escreve:

"Não é simplesmente enfrentar as adversidades, mas encontrar as oportunidades que se escondem atrás delas."

Ao final, Shawn Achor retorna a uma ideia que remonta ao próprio Aristóteles:


"Como disse Aristóteles, para sermos excelentes, não podemos simplesmente pensar com excelência ou nos sentir excelentes, precisamos agir com excelência."



Nesse ponto, o livro encontra um limite importante. Pensamentos e emoções têm influência real sobre a vida humana, mas não bastam por si mesmos. A felicidade exige ação concreta, hábitos bem formados e uma orientação estável para o bem.

 A vida interior importa.


Talvez a principal contribuição do livro seja recordar que as pessoas também são livros. Em uma conversa, em uma observação atenta ou em uma amizade sincera, frequentemente encontramos lições sobre a realidade que nenhuma teoria é capaz de transmitir sozinha. É claro que isso abre margem para refletirmos sobre a qualidade dos relacionamentos que temos e sobre com quais pessoas é saudável manter uma leitura mútua, mas essa é uma conversa para outro momento.

Por isso, considero a obra uma boa leitura complementar para quem deseja refletir sobre felicidade, formação intelectual e crescimento humano.






Referência


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