Questionamentos sobre mostrar a própria vida na internet

by - janeiro 10, 2022


Recentemente estive pensando nessa nova forma de evangelização vigente, essa de mostrar a própria vida. Não digo uma coisa ou outra, digo essa atual forma de mostrar, mostrar, mostrar...

É claro que é normal falar sobre si mesmo e sobre o que Deus faz ou não faz. Mas estava a me perguntar se os discípulos faziam isso: mostrar-se. 

Fiquei por semanas ruminando essa questão, numa onda ora filosófica, ora meramente reflexiva e sempre chegava nesse ponto: os discípulos faziam isso? 

Bem, nenhum deles fez, somente São Paulo falou algumas vezes sobre si mesmo, já os outros, tudo que temos são suas palavras sobre o Senhor, a vida deles se afundou na vida do Senhor, que tudo que contavam era sobre a vida do Senhor... e não as suas.


Nesse ponto da reflexão eu me deparei com o ponto que você deve também estar a pensar agora: o testemunho. No entanto, sobre isso, também existem perguntas: testemunho é falar sobre si mesmo? ou testemunho é falar sobre o que viu ser feito? 


Novamente me perguntei o que os discípulos fizeram... e eles falaram o que viram. 


Sempre achei interessante um ponto na narrativa Bíblica: já reparou que não sabemos nada sobre o que aconteceu com as pessoas que viveram com o Senhor? Exceto São Pedro e São Paulo, não é narrado o que aconteceu com os outros, todos os outros. Não é interessante? Só sabemos pelo legado da Santa Tradição. 


É porque o Senhor é o escritor e o personagem principal do livro, numa história que não acabou, todos que se encontram com o Senhor se afundam nEle de tal forma que o Senhor se torna a sua história pessoal. 


Por isso, fico a pensar nas diversas coisas que essa necessidade de exposição pessoal significa. Todos tem que mostrar o que fazem e quando fazem, pois só assim aquilo existe. Os debates se resumem a atitudes pessoais e opiniões pessoais e não em direcionamentos específicos e claros. A maioria das pessoas perguntam: "o que você acha sobre isso?"... é muito estranho perguntar o que uma pessoa da era moderna tem a dizer sobre algo pessoalmente, quando temos doutores, santos e filósofos para consultar. Mas porque se faz isso? Por ser mais fácil. O escritor Gustavo Corção já falava da "era da publicidade" em 1970, imagina se ele visse o que está acontecendo até entre os "bons e sãos". 


Uma vida com certa discrição, com um território privado, uma vida com áreas não compartilhaveis, é uma vida normal. Jacinto Choza diz que a era do despudor gerou essa abertura excessiva das nossas vidas e casas, coisas que antes pertenciam ao terreno sagrado do privado e íntimo se tornaram entretenimento nas mídias sociais (veja que o despudor se refere a uma cartela extensa de atitudes e está presente entre os bons de forma alarmante). 


No entanto, como católicos, o mais preocupante ainda é: os discípulos fizeram isso? os discípulos, os santos expunham a sua vida? 


Sempre me lembro de um episódio que Santa Gema preferiu ser tida como boba e um tanto tola do que mostrar a sua vida íntima cheia de colóquios com anjos e visões e êxtases. E, veja bem, ela fez isso a um prelado enviado pela Cúria... nem se tratava de cento e uma mil telementes. 


Será que mostrar coisas cotidianas, a sacralidade da vida íntima e familiar, o lar ...enfim, será que isso é ok? Sempre me recordo do costume de receber visitas, ao menos aqui no interior, é super estranho trazer gente recém conhecida para casa, um estranho, fazer isso é coisa de gente doida e quem entra sem ser convidado é bisbilhoteiro e intrometido, e provavelmente será visto assim por toda a vida. Na internet, sem muros e portas, parece que todos entram e saem vendo intimidades alheias sortidamente sem nenhum problema... isso é realmente normal? 


Qual seria o limiar entre propagar a si mesmo e propagar o que o Senhor fez e faz? Essa é a pergunta atual dos meios interneteiros que são minimamente sérios. 


Me pergunto se existe como colocar um limite depois que essa abertura foi iniciada... talvez uma alma bem desarraigada da vaidade consiga, não sei. Afinal, é como olhar um espelho, não é? Os stories quando feitos sobre si, se tornam um espelho compartilhável, que pode ser real, falso, ou fracionado. Mas é um espelho e é sempre bom olhar espelhos, já reparou? Principalmente, nós mulheres. 


Talvez ao entrar nesse caminho seja bom pensar nos riscos, ter um bom diretor e principalmente ver a efetividade disso... e aí vem a parte que muita gente não gosta: falo isso porque pode ser um apostolado ou um negócio. Não existe problema em fazer da própria imagem uma renda honesta, um negócio; modelos, atrizes, apresentadores e etc fazem isso, mas não preciso lembrar dos riscos espirituais e morais dessa abordagem, as pessoas podem passar a ser o centro e aí tudo pode ser bem ruim (temos exemplos atuais bem claros sobre isso). A segunda forma é a de apostolado, num apostolado a pessoa não é o centro, mesmo mostrando algo de si, o centro é o objetivo do apostolado, a razão que te levou a fazer aquilo ali, o princípio norteador e inegociável da sua presença ali... um apostolado é mais exigente que uma aparição monetizável porque não tem como foco nem o executor, nem os seguidores, o foco é o princípio norteador e sua fonte: que é Deus e o cerne do apostolado... raramente cabe num apostolado aparições demasiadas ou indevidas, por simplesmente corromper o princípio norteador, então o executor mata a vaidade em prol do princípio. Ao menos deveria ser assim. 


Mas existem casos em que se faz o oposto e não sei sinceramente até que ponto isso é bom ou ruim. Nós vivemos num país televisivo, que ama um BBB e que é natural acompanhar a vida das pessoas como forma de passatempo (mesmo depois da "conversão" parece que essa atitude não muda). Sempre que penso na exposição nos meios cristãos me vem a imagem da logo do BBB na cabeça e olha que não tenho tv em casa já fazem dez anos. Traumas televisivos. 


Mas voltando ao assunto, pode ser que nessa conjuntura, nada saudável e profundamente dementizante, mostrar a própria vida seja um anzol para algo mais elevado. Pode ser, mas não é certo que será, afinal, os santos não faziam isso, então existe uma margem de questionamento enorme, além dos diversos livros que falam sobre recolhimento, escondimento e etc., ou seja, orientam o oposto. 


Por exemplo, (e estava a conversar sobre isso com a Daiane do @fiatvoluntastua) um conteúdo mesmo edificante no Instagram (ou o YouTube), que é uma tela de rolagem sem fim, é mesmo efetivo, muda mesmo as pessoas? Quando penso nisso acho que é uma efetividade baixa para média, a depender da linguagem, se for uma linguagem comum ao brasileiro e que ele não precisa mudar nada moralmente diante daquilo, mas saber sobre o assunto lhe dá um status cool, pode ser que ele "melhore" alguma coisa sem tempo determinado. Basta ver as mudanças políticas e morais de areia movediça que passamos, mudamos? sim, é firme? não, e a razão é essa mentalidade do status cool sem mudança religiosa e moral real. Todos sabem dizer "eu sou eu e minhas circunstâncias" com ares filosóficos mas não sabem de quem é essa frase (é de Ortega). O ciclo de mimetismo que deveria ter sido quebrado para gerar mentes capazes de discernir não aconteceu, todos estão imitando, até entre os bons. Claro que diante do quadro isso não é de todo ruim, melhor imitar algo melhor que continuar imitando o ruim, mas está longe de ser o ideal e efetivo. Até porque a imitação é baseada no conveniente e gostosinho, se for proposto algo que exige mudanças comportamentais já não serve. Basta ver a onda de status cool embalada em palavrões que estamos vivendo e outros pontos morais e comportamentais simples que ganharam retrocesso mesmo com o cartaz de feminilidade exposto nas cento e uma mil biografias do Instagram. Pautas vazias, que fazem pensar se realmente existe efetividade de evangelização num meio assim (o que não quer dizer que não devemos estar lá, veja bem... mas podemos pensar na qualidade do solo... e não é boa).
 

Já quando existe uma  abertura de coração verdadeira, mesmo diante de uma linguagem mais sóbria a pessoa mudará muito. Já vi pessoas encontrarem na internet toda a formação que não tiveram (e não se tornarem revoltados). Uma vez eu ofereci uma resposta num stories a uma caixa de pergunta e depois a pessoa mandou uma mensagem dizendo que mudou sobre o abordado e outras coisas, veja bem ela pegou um norte numa resposta de storie e foi atrás, Deus já estava lá e o coração estava aberto; enquanto com outros podemos falar por horas e nada, pedra pura e dura. O número de corações sedentos é grande, já os abertos é ainda bem reduzido. E a ferramenta não parece ajudar a abri-los de verdade. 


Outro ponto é a própria ferramenta, o Instagram é uma rede instantânea, tudo lá dura no máximo 24 horas, e pessoas que querem deixar um legado mais sério acabam não vendo muita razão nessa linha, eu por exemplo faço as coisa para que durem. O Instagram gera tudo muito rapidamente e superficialmente, nem barra de busca de conteúdo tem, veja bem, quer dizer que isso não importa de verdade. As outras plataformas fazem quase o mesmo caminho e estão se tornando a terra dos monólogos, todos falam, ninguém escuta. 

Portanto, o meio de evangelização nas redes é sim bem limitado se considerarmos a efetividade, que é: a pessoa que vê o conteúdo se converter, ter vida sacramental, mudar de vida mesmo e criar tipo, um tipo católico mesmo. Isso porque a maioria está de passagem, querendo ver a vida alheia, isso digo até dos bons e religiosos, que fique claro. Lembrando que se isso - mostrar a própria vida - edifica pode até ser bom, mas, novamente, a vaidade e a curiosidade vã são leões sempre rondando essa abordagem. 


Assim, existem perguntas importantes: isso é inerente e necessário a sua vocação? isso compromete a sua vocação? você ajuda pessoas efetivamente? qual o reflexo disso na sua espiritualidade e plano de vida espiritual? você consegue manter-se no caminho das virtudes mesmo com as divergências de exemplos do meio ou parece uma biruta que muda de opinião toda hora? e aí faz dos outros birutas também, o que isso muda na sua vida efetivamente, no sentido de propósito de vida? 


Essas perguntam importam porque quando uma pessoa escolhe expor a sua vida e tenta influenciar pessoas corre o risco de passar somente a sua visão do assunto. Veja bem, é diferente passar o que São Tomás diz e a minha visão sobre tal assunto sério, a chance da minha visão ser limitada, fraca, medíocre ou tendenciosa a fazer o mínimo é enorme. O interessante é que parece que todos querem opniões pessoais que obviamente não chegarão num consenso, pois são pessoais. Principalmente entre as mulheres isso é muito comum, pois se considera mais a afinidade do que a realidade (parece o BBB, percebeu?). 


Por isso, esse assunto está longe de ser simples, parece mais um efeito colateral no que se refere ao nosso país bbbtizado. No entanto, pode ser um anseio em alguns casos raros, outros países também tem visto crescer o número de influenciers do cotidiano, principalmente as linhas do slow living e outras, que é a expressão de um anseio genuíno, justo e aceitável por uma vida mais lenta dentro da insanidade que se tornou a modernidade, é uma voz serena que pede para voltar a forma de vida tradicional humana, em que o tempo é vivido e não perseguido. Mas a principal característica dessa vertente é que se mostra justamente isso o viver o tempo e não a vida da pessoa, a pessoa não é o centro... não sei se estou sendo feliz em explicar, mas me parece uma diferença bem significativa, já que todo anseio humano manifesto trás uma espécie de ensinamento que nos afasta do erro. 


Também é importante lembrarmos da atmosfera de competição que existe atualmente na internet, mesmo sem questões políticas e religiosas envolvidas, sempre temos a experiência de observar certa falta de maturidade ao ver a vida diferente de outra pessoa, suas possibilidades, seus supostos privilégios, tudo isso exige um nível de maturidade, ainda mais se pensarmos que estamos falando sobre ver a vida de mais de uma pessoa em minutos. Isso pode gerar uma sensação de insatisfação e a já dita competição velada. Claro, que não quero dizer que isso é algo justificável, é muito sério quando não conseguimos notar que as pessoas tem condições de vida diferentes e é isso. Não estou falando de exibicionismo, só da parte simples de ver que o fulano tem outro status social. Não se desanimar com isso ou ainda não usar isso para permanecer na mesma é maturidade... muitas vezes ver o status de outra pessoa dá aquela desculpa para não fazer algo, pois se pensa, "haaaa mas a fulana tem ajuda na faxina", "haaaa mas a fulana mora num condomínio", "haaaa mas olha a máquina de café da fulana", " haaaa mas olha onde ela mora"; enfim desculpas vindas da comparação. 


A internet aumentou a percepção das diferenças entre as pessoas, diferenças morais, religiosas e sociais. Eu me lembro que descobri que era pobre quando olhei o conjunto de 64 mil canetinhas da minha amiguinha de sala e eu com o meu de doze cores sem marca. Na internet esse momento foi amplificado na vida de todos, estamos diante das diferenças todo o tempo e quanto maior a exposição mais isso se afirma. Pensando como cristãos: será que devemos contribuir com isso? Onde o Senhor cresce nessa dinâmica?


Singelamente, Ana





 























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