Piracicaba: O café de São Benedito

by - terça-feira, agosto 13, 2024




O costume de oferecer café a São Benedito é uma prática presente em várias regiões do Brasil e mostra como religião e cotidiano se misturam na formação cultural do país. São Benedito, frade franciscano siciliano do século XVI e filho de escravizados africanos, ficou conhecido pela humildade e pelo cuidado com os pobres. No Brasil, sua devoção cresceu tanto entre comunidades negras quanto entre descendentes de imigrantes europeus. O gesto de colocar o primeiro café coado do dia diante de sua imagem tornou-se uma forma simples de devoção.


O café, que desde o século XIX é parte central da economia e da identidade brasileira, ganha nesse costume um valor simbólico. Essa prática é característica do Brasil, já que em países como Itália e Espanha, onde São Benedito também é venerado, a devoção se expressa mais em procissões e festas.


Em Piracicaba, cidade que recebeu grande número de imigrantes italianos entre 1870 e 1920, o costume ganhou força entre famílias descendentes desses imigrantes. Instituições como a Società Italiana di Mutuo Soccorso e empreendimentos como a Usina Monte Alegre, na década de 1910, mostram como a presença italiana influenciou não apenas a economia, mas também os costumes religiosos locais.


É importante diferenciar o café oferecido a São Benedito do chamado “café dos pretos”, presente em rituais afro-brasileiros ligados à ancestralidade. Enquanto o primeiro está ligado à devoção católica popular, o segundo remete à memória coletiva e à espiritualidade de matriz africana. Ambos, porém, usam o café como símbolo de certa energia vital e pedido de fartura.


Esse costume se consolidou no início do século XX, transmitido oralmente e mantido em ambientes domésticos. Ao mesmo tempo, o Brasil vivia um período de intensa produção cultural. Em 1875, José de Alencar publicava Senhora, discutindo casamento e ascensão social. Em 1878, Eça de Queirós lançava O Primo Basílio, obra portuguesa que circulava intensamente no Brasil. Em 1899, Machado de Assis publicava Dom Casmurro, clássico que refletia sobre memória. 


Na imprensa, o Correio Braziliense, publicado em Londres entre 1808 e 1822, já não existia mais. No final do século XIX, jornais como a Gazeta de Notícias (1875) e o Jornal do Commercio (1827) eram os principais veículos de circulação, responsáveis por difundir ideias literárias, políticas e culturais.












No final do século XIX, Piracicaba já mantinha contato com os grandes jornais nacionais, que circulavam para além das capitais por meio das redes ferroviárias e do sistema postal. Periódicos como o Jornal do Commercio (fundado em 1827, no Rio de Janeiro) e a Gazeta de Notícias (fundada em 1875, também no Rio) chegavam à cidade, ainda que com algum atraso, e eram lidos principalmente por grupos ligados às elites locais e às discussões políticas e culturais mais amplas. Ao mesmo tempo, a imprensa piracicabana começava a se organizar com a fundação de O Piracicabano, em 1874, considerado o primeiro jornal da cidade, voltado às questões regionais e ao cotidiano da comunidade. Dessa forma, Piracicaba vivia uma dupla experiência: de um lado, acompanhava os debates nacionais trazidos pelos “jornalões” do Rio; de outro, fortalecia sua própria imprensa local, que refletia os interesses e vivências da população, mostrando como a cidade estava inserida tanto nas transformações culturais do país quanto na construção de sua identidade própria.



Assim, o costume de oferecer café a São Benedito deve ser entendido dentro de um contexto maior: imigração italiana, economia cafeeira, literatura e imprensa. É um gesto simples, mas que carrega a memória de um país em formação. Do ponto de vista cultural e semiótico, o café diante do santo é um símbolo que reúne fé católica, identidade cultural e tradição familiar e doméstica.


Nas regiões do Brasil onde o costume de oferecer café a São Benedito se mantém vivo, como em Piracicaba (SP) e Cuiabá (MT), a Igreja Católica não possui uma posição oficial registrada sobre essa prática, já que não faz parte da liturgia formal. Trata-se de uma manifestação de religiosidade popular, transmitida oralmente e vivida no espaço doméstico, que costuma ser acolhida pastoralmente pelos padres locais. 



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