O MíNIMO QUE UM CATÓLICO PRECISA SABER SOBRE O EXAME DE CONSCIÊNCIA DIÁRIO

by - janeiro 31, 2018

saúde espiritual e mental


Nos últimos anos, alguns observaram uma crise generalizada na Igreja quanto à prática do exame de consciência. Por um lado, para muitos, tornou-se um exame legalista (basicamente colocando-se na sala do tribunal), feito exclusivamente no contexto da confissão, que pode produzir efeitos colaterais como escrupulosidade, depressão e desânimo - em alguns casos, à ansiedade patológica. Por outro lado, em reação, outros se mudaram para uma psicologia mais secularizada, drenada do espiritual . Os exercícios de auto-observação destinados a alcançar a "higiene mental" (pelo que, basicamente, o que é importante é que eu me sinta bem comigo mesmo) substituíram as práticas mais tradicionais.

Então qual é o problema? Muito simples: em cada um dos erros acima, o foco do meu exame de consciência é o eu , sendo que,  quando devidamente entendido, deveria ser Deus e eu . Um encontro para todos os dias!

Primeiro, gostaria de apresentar algumas idéias-chave para te ajudar a compreender o contexto teológico e espiritual apropriado para o exame da consciência. Para todos vocês sanguíneos e coléricos que me lêem, sejam pacientes (caso você não saiba a relação entre temperamento e espiritualidade clique aqui)... vamos chegar ao "Como fazer" em breve.

Rememorar!

Em nossa época, a memória foi reduzida ao armazenamento de dados. Como uma peça extra que se une à nossa placa-mãe. É útil, mas não afeta a nossa vida diária (nosso sistema operacional). A primeira coisa que precisamos fazer, então, é ter em mente que quando lembro de um evento na minha vida, não estou apenas a recordar informações; em vez disso, em certo sentido, estou re-vivendo o passado.

A palavra memória vem do verbo latino, re-memor. "Re" expressa força intensiva, enquanto "memor" refere-se à mente ou ao coração. Então, podemos dizer que lembrar é reinserir algo de volta ao coração. Evidentemente, nosso modelo aqui é a Santa Virgem; Ela sabia como "manter todas as coisas em seu coração" (Lc 2, 51).

Sem moralismo vazio, please!

A próxima pergunta é: "O que vamos lembrar?". Muitos consideram o exame da consciência como uma ferramenta que nos ajuda a lembrar nossos pecados e falhas durante um período de reflexão silenciosa antes de se aproximar do sacerdote em Confissão. Isso é verdade. Mas possuir somente essa visão sobre o exame de consciência pode gerar alguns contratempos sérios na vida espiritual.

O Papa Emérito Bento XVI nos ensina:

"Ser cristão não é o resultado de uma escolha ética ou uma idéia elevada, mas o encontro com um evento, uma pessoa, que dá à vida um novo horizonte e uma direção decisiva" (Deus Caritas Est, 1).

A moral é quando agimos por causa de uma regra, não por causa de alguém . E agir por ética é como a doença de Alzheimer; o velhinho compra flores, mas só porque é seu hábito ... ele esqueceu o rosto da sua amada. Embora as duas atitudes possas ser tomadas, elas não são a abordagem mais perfeita, pois, excluí a ação por amor à Deus.



O coração da nossa fé é o nosso relacionamento com Deus. Os relacionamentos dependem de encontros. Fazendo uma dedução ao estilo de Sherlock Holmes, podemos concluir que o que precisamos lembrar é sobretudo os encontros, mais especificamente, nossos encontros com Deus.

Agora, para provar que não sou o única que fala isso podemos ver que a Bíblia é uma série de encontros entre Deus e o homem ? Na verdade, eu diria que nossa fé é em grande parte uma lembrança do agir de Deus. O Êxodo está cheio desses incríveis encontros! 

Somente depois de provar inequivocamente seu amor misericordioso por seu povo, Deus revela a eles a lei que os levará a um relacionamento mais autêntico com Ele. Isso significa que todo exame de consciência deve começar com uma ação de graças que recorda os grandes feitos do amor misericordioso de Deus em nossa história, seja no passado ou esta manhã no café da manhã.

É hora de reestruturar as fundações

Se estamos cientes disso ou não, nossa vida cotidiana é extremamente afetada pelo que lembramos. Em um momento de dificuldade ou sofrimento, seja algo pequeno como um engarrafamento depois de um dia cansativo ou algo mais sério, é extremamente difícil reconhecer qualquer coisa positiva, muito menos a presença de Deus. Mas mais tarde naquele dia, enquanto você está fazendo seu exame de consciência, você percebe que você tem duas opções: 1) você pode ficar com essa sensação de frustração e impaciência por não ter sofrido uma, mas duas provações hoje, ou, 2) você pode notar que esse engarrafamento te daria tempo para pensar em algo sobre sua família, seus filhos ou em algo que poderia melhorar o seu período fora do trabalho e se a inquietação estivesse muito grande poderia entregar aquele momento a Deus, unindo aquele momento ao do Senhor na Agonia ou usá-lo ainda para rezar o terço. 

A presença de Deus sempre traz vida. Ao descobri-lO, mesmo naquelas situações que parecem oferecer apenas escuridão e dor, tudo começa a assumir uma nova luz e significado: são, de certo modo, transfigurados e ressuscitados pela presença dEle.

Ainda assim, devemos ter cuidado com o pensamento positivo e simplista ou de otimismo forçado / falso. A questão não é "o que posso tirar de positivo disso", mas sim, "Deus, como o Senhor estava presente?". Devemos estar abertos ao fato de que muitas vezes Deus está realmente presente e trabalhando em nossas vidas, mesmo pelas piores circunstâncias. Estas feridas podem permanecer, mas quando são oferecidas em confiança e obediência tornam-se feridas de glória que manifestam a salvação amorosa de Deus em nossas vidas.

Duas práticas fundamentais que nos ensinam e nos permitem alcançar essa reestruturação são: meditar as Sagradas Escrituras e participar ativamente da Liturgia.


Sagrada Escritura: a memória cristã

Você já sentiu esse desejo espontâneo de aprender mais sobre sua família? Nós podemos encontrar pessoas santas em nossa família ou talvez imigrantes heróicos, soldados valentes ou simplesmente pecadores frágeis.

Poucos cristãos realmente valorizaram em seus corações as memórias do povo de Deus. A meditação diária nas Escrituras é fundamental! O Antigo Testamento ensina-nos as vitórias e derrotas (mais derrotas do que vitórias) do povo de Israel e como Deus nunca desistiu deles.

Esse é um dos motivos que iniciamos um estudo histórico da Bíblia, que nos leva a olhar os textos do Antigo Testamento como livros que contam a história da nossa família espiritual, família que passamos a fazer parte no Batismo e que se tornaram para nós fonte de ensinamento, no entanto, para aprender os ensinamentos elevados e se deixar moldar, muitas vezes à paulada, devemos abrir espaço para conhecer todos essas pessoas que tiveram encontros tão profundos com Deus, para iniciar o seu estudo basta clicar no livro que deseja se aprofundar, te garanto que irá se surpreender: Gênesis, Êxodo e outros.

O Novo Testamento também está repleto de detalhes do amor misericordioso de Deus que se tornou carne e morreu para que o homem possa viver n'Ele. Lembrando-nos desses encontros, revivendo-os diariamente podemos substituir nossos fundamentos fracos (memórias sem Deus) pelas memórias dos cristãos (memórias cheias de Deus. Isso não significa que não teremos mais memórias dolorosas, significa que não estaremos mais vivendo sozinhos com essas memórias).


Liturgia: onde a memória de Deus e a memória do homem se encontram

Como veremos em maior detalhe, tudo isso é destinado a aprender a lembrar como Deus se lembra, aprender a olhar para a História - e, finalmente para nossa própria história pessoal - com os olhos de Deus. As Sagradas Escrituras nos introduzem nesta escola e na Liturgia nós vivemos essa experiência, atualizamos em nós o que todos os cristãos e patriarcas testemunharam da sua vivência com a presença real de Deus. 

Como dissemos antes, lembrar é re-viver. Isto na Liturgia atinge seu máximo cumprimento. 

Quando respondemos ao convite de Cristo: "fazei isso em memória de mim", estamos lembrando o Mistério Pascal (a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus Cristo) no sentido mais profundo do termo, isto é, estamos re-vivendo .

Graças ao Espírito Santo, a memória se torna verdadeira participação; a memória do nosso encontro com Deus se torna um verdadeiro encontro de uma maneira totalmente nova.

É aqui que a memória de Cristo, de quem Ele é, o que Ele fez por nós, e como Ele nos vê transforma  nossa memória (como vemos nosso passado) e reestrutura nossa mentalidade, na Liturgia é que podemos realmente passar por uma metanóia, o que transforma a forma como vivemos, nossa atividade moral e a forma como julgamos nossas próprias vidas.

É hora da História!

Eu gosto da ideia de "contar histórias" porque penso que o exame da consciência precisa ser um momento em que nos colocamos na presença de Deus para recontar a história dos nossos dias.

O que se segue abaixo é uma explicação mais prática, um passo a passo para ajudá-lo a começar a praticar o exame de consciência diariamente:


1. Abra-se à presença de Deus



Dica prática: encontre um canto quieto em sua casa ou em uma capela. Ter uma imagem sacra à sua frente é o ideal. Acenda uma vela. Tome alguns momentos para respirar. Comece fazendo o sinal da cruz e reze o Confiteor.

Este primeiro momento de nosso exame de consciência é um momento para voltar o olhar de nosso coração na direção do Senhor e redescobrir seu amor por nós. A leitura de uma breve passagem da Sagrada Escritura também pode ser útil.


2. Deixe Deus puxar o álbum de fotos



Você já se sentou ao lado de um avô enquanto ele lhe mostra o álbum de fotos de seus filhos? Você se lembra de todo o calor, carinho e intimidade que ele exalou? Agora é hora de deixar Deus fazer o mesmo. Antes de revisar o nosso dia, a idéia é lembrar quem somos do ponto de vista de Deus: filhos amados.

Tente lembrar algumas das passagens das escrituras (álbum de fotos de Deus). Deixe-o contar-lhe sobre como Ele resgatou Israel, como Ele perdoou Davi. Lembre-se, a liturgia e a Sagrada Escritura são as duas fontes onde nossa própria memória é renovada e transformada na memória de Deus. Lembre-se da paciência e da fidelidade que Deus mostrou com o povo de Israel. Lembre-se de quão frequentemente a fragilidade humana parece ter tido a última palavra, até que Deus encontrou uma maneira de mostrar que Ele é o Senhor da história e o Senhor da nossa história também. Lembre-se de todas aquelas pessoas que Jesus amava, de todos os corações que tocou, de todas aquelas feridas que Ele curou ... lembre-se de que está agora na presença do mesmo Jesus. Pense em como Ele pode falar sobre essas pessoas, e então lembre-se de que Ele pensa em você da mesma forma.


3. Diálogo sobre o seu dia com Jesus



Com tudo isso em mente, reveja o seu dia, mas faça isso em diálogo com Jesus. Veja os pontos principais do seu dia: o que te impressionou, o que era bonito, o que era difícil, o que não era claro, etc. Não é preciso ser rígido aqui, dê a memória um pouco de espaço e tempo e permita que as coisas flutuem sem problemas .

Depois de terminar, faça uma pausa e fique em silêncio. Lembre-se que este é um diálogo, e não um monólogo. Antes de chegar às especificidades, tente meditar sobre onde você acha que o Senhor pode estar dirigindo você pelo que está experimentando, pelas suas atitudes, suas ações, seus encontros, seus pensamentos, suas provações, suas vitórias, sua derrotas, etc. O que Ele está te dizendo?

- Senhor, quem você me chama para ser? Senhor, quem  vê quando me olha?


- Senhor, como você está trabalhando na minha vida? Onde está o Senhor está?


- Senhor, de que jeito eu estou cada vez mais perto de você? De que maneira eu estou me afastando? 


- Estou cooperando? Estou percebendo e ouvindo Sua Voz?


4. Admita suas falhas


A parte mais importante do Exame de Consciência chama-se auto responsabilidade. Vivemos numa época em que se banaliza a culpa, mas a culpa é saber que se está errado e não tomar responsabilidade. O que importa é o que fazemos com a culpa que sentimos. Existe uma beleza na culpa e essa beleza chama-se auto responsabilidade, mas infelizmente poucos se abrem para vislumbrá-la.

Agradeça a Deus pela maneira como Ele está trabalhando em sua vida através de cada opção para fazer algo melhor ou pior do que já fez antes, através de cada situação em pode tentar imitar um santo ou simplesmente não tentar, porque ele nunca desiste de você.

Ao fazer o Exame de Consciência, é natural reconhecer que você tropeçou no caminho, talvez muitas pequenas quedas, talvez uma queda grande, grande mesmo. Você negou sua própria identidade. Você rejeitou o olhar verídico de Deus sobre você e deixou com que o olhar do mundo fosse o olhar que te guiasse, no pequeno ato ou no grande

Aqui, é importante tentar reconhecer o que você fez especificamente, bem como algumas causas possíveis sobre o porquê. O que o levou a agir do jeito que você agiu? Como você pode evitar ou melhorar?

É o momento em que você reconhece suas falhas, admite que foi você quem as fez, que você é responsável por essas ações. Lembre-se, sem admissão da responsabilidade, não há reconciliação.

Às vezes, podemos ser excelentes para justificar ou adoçar nossos próprios pecados. Jesus é misericordioso e amoroso, mas ele também é a Verdade. Se você não tem tanta certeza se algo foi um pecado ou se foi uma tentação, eu sugiro que você dê uma olhada aqui e caso queira fazer um exame de consciência para se confessar melhor é indicado pelo Padre Duarte Lara aqui.

Lembre-se o Exame de Consciência deve ser feito diariamente, à noite, como forma de conversar com Deus sobre suas mazelas e como melhorar. Mas, é claro, caso encontre pecados graves (caso não saiba o que é um pecado grave ou como discernir entre pecado venial e o grave clique aqui) você deve buscar um confessor, assim como, se notar que existem pecados que você confessou mal ou omitiu você pode buscar fazer uma confissão geral (caso não saiba sobre os benefícios da confissão geral, o que é e a razão de fazê-la clique aqui).

Depois, desses ajustes ou caso já se encontre ajustado, deve focar em fazer o Exame de Consciência buscando uma sinceridade na relação com Deus e um conhecimento de si mesmo pelos olhos de Deus, se oferecendo para que Deus apare as arestas que estão em nós em número muito maior do que pensamos. O que nos ajuda a praticar a humildade de ver que não somos tão maduros e preparados como acreditamos, que não é porque nenhum padre nos chama atenção que está tudo bem... muitas vezes é o contrário. E por outro lado também ajuda os escrupulosos a não se tornarem tão altivos e descrentes na Graça de Deus.

5. Elaboração de um plano



Nos esportes, um bom treinador sempre reserva um tempo para analisar o jogo da semana passada com sua equipe. Podemos seguir um plano de jogo semelhante na vida espiritual. Depois de revisar seu dia, aproveite um momento para pensar em como você pode melhorar amanhã. Não precisa ser ingênuo, você não vai se formar nas pequenas ligas do Super Bowl da santidade em um dia. Ainda assim, estamos sempre avançando ou retrocedendo ou parando e como diz Santa Tereza D'avilla parar é retroceder. Tente encontrar uma maneira simples de crescer no que você acredita que Cristo deseja que você cresça, no caminho das pequenas coisas como Santa Teresinha.

Mantenha essa ideia ou reflexão em sua mente e tente lembrar-se dela no momento em que você acorda no dia seguinte, um diário espiritual ajuda muito nessa prática (se você não tem idéia de como fazer uma diário espiritual clique aqui). A maior parte do nosso dia depende dos primeiros momentos. Ao formar esse hábito descobrimos que nosso exame de consciência pode ser muito saudável em nossa vida de cristãos.

6. Ação de graças



Dar graças a Deus pelos ensinamentos dados. Nós agradecemos muito pouco, a oração da noite deve ser um momento de gratidão (caso você não saiba muitos sobre essa oração muito feita por Moisés clique aqui)

Como o Pe. Rupnik diz:

"Nela, aprendemos um realismo sadio que nos tira nossas ilusões de perfeição moral, disciplinar ou psicológica, porque experimentamos a graça da contínua transformação devido à morte e ressurreição de Cristo. Um exame de consciência levado a cabo dessa maneira leva ao que era tão apreciado pelo coração de Dostoyevski: sentindo-se livre em relação a Deus, vivendo em liberdade como seus filhos ... Somente filhos livres podem apresentar e testemunhar a verdadeira imagem do pai ". 


Algumas frases foram tiradas de um livro escrito pelo Pe. Rupnik que eu sugiro: Human Frailty, Divine Redemption: The Theology and Practice of the Examen.

Imagens do site americano: Catholic Link

Paz e Bem,
Ana 
"Enchi-me de zelo pela minha Mãe Imaculada e Ela me livrou de todas as tribulações"















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4 comentários

  1. Ana, ainda não li tudo o que tu escreveu! Mas esse texto com certeza foi o melhor até agora! Deus te abençoe! :* Karla

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  2. Gosto muito do seu canal. Sua maneira de falar é simples e consegue explicar muito bem assuntos importantes da vida espiritual de um catolico. Parabens! Deus lhe abençoe sempre!

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Olá, Paz e Bem! Que bom tê-lo por aqui! Agradeço por deixar sua partilha.