QUAL A RAIZ DA PREOCUPAÇÃO DE ALGUÉM CRIADO DO PÓ?| São João Paulo II

by - novembro 16, 2017



O texto abaixo é a transcrição de uma das catequeses de São João Paulo II e faz parte do que chamamos catequeses sobre Teologia do Corpo.

É fundamental a leitura atenta do texto em questão pois são abordados pontos de suma importância para os dias atuais.

AUDIÊNCIA GERAL DE 31 DE OUTUBRO

Durante a Audiência Geral, na quarta-feira, 31 de outubro, realizada na Praça de São Pedro, o Santo Padre fez o seguinte discurso.

1. Hoje, é oportuno voltar ao significado da solidão original do homem, que emerge sobretudo da análise do chamado texto javista de Gênesis 2. Como vimos nas reflexões precedentes, o texto bíblico nos permite expressar não apenas a consciência do corpo humano (o homem é criado no mundo visível como um "corpo entre corpos"), mas também o de seu significado.

Em vista da grande concisão do texto bíblico, não é possível amplificar demais essa implicação. É certo, no entanto, que aqui toca o problema central da antropologia. A consciência do corpo parece ser identificada neste caso com a descoberta da complexidade da própria estrutura. Com base na antropologia filosófica, essa descoberta consiste, em suma, na relação entre alma e corpo. A narrativa javista, com sua própria linguagem (isto é, com sua própria terminologia), é expressa dizendo: "O Senhor Deus formou o homem de pó do chão e soprou em suas narinas o fôlego da vida e o homem tornou-se um ser vivo" (Gn 2, 7). (1) Precisamente este homem, "um ser vivo".

A premissa de o homem se distinguir desta maneira é precisamente o fato de que somente ele é capaz de "cultivar a terra" (Gn 2: 5) e "subjugá-la" (Gn 1:28). Pode-se dizer que a consciência de "superioridade" contida na definição de humanidade nasce desde o início com base em uma práxis ou comportamento tipicamente humano. Essa consciência traz consigo uma percepção particular do significado do próprio corpo.

Expressa a pessoa

2. Parece necessário, portanto, falar em primeiro lugar desse aspecto, e não do problema da complexidade antropológica no sentido metafísico. A descrição original da consciência humana, dada pelo texto javista, compreende também o corpo na narrativa como um todo. Contém o primeiro testemunho da descoberta da corporeidade e até, como já foi dito, a percepção do significado do próprio corpo.Tudo isso é revelado não com base em qualquer análise metafísica primordial, mas na base de uma subjetividade concreta do homem que é bastante clara.

O homem é um sujeito não só por causa de sua auto-consciência e autodeterminação, mas também com base em seu próprio corpo. A estrutura deste corpo permite que ele seja o autor de uma atividade verdadeiramente humana. Nesta atividade o corpo expressa a pessoa. Portanto, em toda a sua materialidade ("Deus formou o homem do pó do chão"), é quase penetrante e transparente, de modo a deixar claro quem é o homem (e quem ele deveria ser), graças à estrutura de sua consciência e de sua autodeterminação. Sobre isso repousa a percepção fundamental do significado do próprio corpo, que pode ser descoberto ao analisar a solidão original do homem.

3. E aqui, com esta compreensão fundamental do significado de seu próprio corpo, o homem, como sujeito da antiga aliança com o Criador, é colocado diante do mistério da árvore do conhecimento. "Comereis de toda a árvore do jardim, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comereis, porque no dia em que dela comerdes morrereis" (Gn 2: 16-17). O significado original da solidão do homem baseia-se na experiência da existência obtida do Criador. Esta existência humana é caracterizada precisamente pela subjetividade, que inclui também o significado do corpo.

Mas poderia o homem, em sua consciência original, conhecer exclusivamente a experiência de existir e, portanto, de vida , ter compreendido o significado das palavras: "Você morrerá"? Teria sido capaz de chegar a entender o significado dessas palavras através da estrutura complexa da vida, dada a ele quando "o Senhor Deus ... soprou em suas narinas o fôlego da vida"? Deve-se admitir que a palavra "morrer", completamente nova, apareceu no horizonte da consciência do homem sem que ele tivesse experimentado sua realidade. Ao mesmo tempo, esta palavra apareceu diante dele como uma antítese radical de tudo o que o homem tinha sido dotado.

Pela primeira vez, o homem ouviu as palavras "Você vai morrer", sem ter qualquer familiaridade com elas em sua experiência até então. Por outro lado, ele não podia deixar de associar o significado da morte com aquela dimensão da vida que ele tinha desfrutado até então. As palavras de Deus-Yahweh endereçadas ao homem confirmaram uma dependência no existente, de modo a tornar o homem um ser limitado e, por sua própria natureza, sujeito à inexistência.

Estas palavras levantaram o problema da morte de uma maneira condicional: "No dia que comerdes dela, morrereis". O homem, que tinha ouvido estas palavras, teve de encontrar a sua verdade na estrutura interior de sua própria solidão. Em suma, dependia dele, da sua decisão e livre escolha, se, com a solidão, entraria também no círculo da antítese que lhe foi revelada pelo Criador, juntamente com a árvore do conhecimento do bem e do mal e, assim, fazer a sua própria a experiência de morrer e morrer.

Ouvindo as palavras de Deus - Yahweh, o homem deveria ter entendido que a árvore do conhecimento tinha raízes não só no jardim do Éden, mas também em sua humanidade. Ele deve ter entendido, além disso, que aquela árvore misteriosa escondia em si uma dimensão de solidão, até então desconhecido, com o qual o Criador o tinha dotado no meio do mundo dos seres vivos, ao que ele, o homem - em presença de próprio Criador - tinha "dado nomes", para entender que nenhum deles era semelhante a ele.

Criado a partir da poeira

4. O significado fundamental de seu corpo já havia sido estabelecido através de sua distinção de todas as outras criaturas. Ficou assim claro que o "invisível" determina o homem mais do que o "visível". Então, lhe foi apresentada a alternativa estreitamente e diretamente ligada por Deus à árvore do conhecimento do bem e do mal. A alternativa entre a morte e a imortalidade, que emerge de Gênesis 2:17, vai além do significado essencial do corpo do homem. Ele compreende o significado escatológico não só do corpo, mas da própria humanidade, distinguida de todos os seres vivos, dos "corpos". Esta alternativa preocupa, no entanto, de uma forma bastante particular, o corpo criado a partir da poeira.

Para não prolongar esta análise, apenas observaremos que desde o início a alternativa entre morte e imortalidade entra na definição do homem. Ela pertence "desde o início" em sua solidão perante o próprio Deus. Este significado original da solidão, permeado pela alternativa entre a morte e a imortalidade, também tem um significado fundamental para toda a teologia do corpo.

Com esta observação concluímos, por enquanto, nossas reflexões sobre o significado da solidão original do homem. Esta observação, que emerge de forma clara e penetrante dos textos do Gênesis, induz a reflexão tanto sobre os textos quanto sobre o homem. 

Talvez ele seja muito pouco consciente da verdade que o preocupa e que já está contida nos primeiros capítulos da Bíblia.

Notas

1) A antropologia bíblica distingue no homem não tanto o corpo e a alma como corpo e vida.

O autor bíblico apresenta aqui a conferência do dom da vida através do "sopro" que não deixa de pertencer a Deus. Quando Deus o tira, o homem retorna ao pó, do qual foi feito (Jó 34: 14-15, Salmo 104: 29).

Tirado de:

L'Osservatore Romano

Edição semanal em inglês

5 de novembro de 1979, página 15

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