4 PONTOS DA TEOLOGIA DO CORPO SOBRE MASCULINIDADE E FEMINILIDADE

by - outubro 16, 2017




"O corpo revela o homem". Esta frase foi dita por São João Paulo II, num dia chuvoso de catequese em 1979, na segunda catequese sobre Teologia do Corpo. 

Primeira Catequese: 
DA UNIDADE E DA INDISSOLUBILIDADE DO MATRIMÔNIO POR S. JOÃO PAULO II (aqui)

Outros materiais:
DIFERENÇAS ESPIRITUAIS ENTRE HOMEM E MULHER (aqui)
DIFERENÇAS DA IDENTIDADE DO HOMEM E DA MULHER (aqui)

Interessante que ele aborda temas que até hoje, acredito, que causariam certo estranhamento em muitos católicos, que preocupados em alcançar a santidade - que é muito louvável- se esquecem de sua humanidade ou se se tornarem seres humanos aceitáveis, melhor dizendo. 

As catequeses de São João Paulo II nos ajudam a resgatar a realidade humanidade em sua singularidade, nos apontando o que efetivamente é ser imagem e semelhança de Deus. Afinal, temos hoje, ainda, uma visão um tanto afetiva dessa realidade e pouco efetiva. 

Abordo esse aspecto na introdução, pois, é de fundamental importância para a compreensão do masculino e do feminino.

Também considero importante a lembrança de que, num contexto javista, ou seja, judaico, temos umas variação na tradução do Gênesis em relação a criação do homem e da mulher. A primeira refere-se a criação do homem do barro e depois a retirada da mulher da costela do homem, a mais comum. Uma outra, que ajuda a entender alguns pontos da Teologia do Corpo, parte da narrativa em que o homem e a mulher existiam em um único corpo, mas estavam "de costas" um para o outro, Javé então os separou para que pudessem enfim se encontrar e por fim não se sentirem sós (por isso, se diz em algumas traduções, que a mulher foi feita da metade do homem). Ou seja, poderiam ser felizes numa união de pessoalidades distintas.

Ambas as narrativas javistas possuem a intenção de mostrar a presença do masculino e do feminino, além de sua concentração em formas separadas, de homem e de mulher. 

Outro ponto também abordado por São João Paulo é a solidão do homem e da mulher, também retratada no Gênesis, abordada de forma mais minuciosa na segunda tradução. 

Em tempos de ideologias que tem a única intenção de afastar o homem e a mulher de sua identidade, afastando-os assim de si mesmos, dos outros e de Deus, essa catequese em quatro pontos nos ajuda no entendimento da importante da imagem corporal na vida humana. Leia com atenção:


O HOMEM SE TORNA A IMAGEM DE DEUS PELA COMUNHÃO DE PESSOAS
Papa João Paulo II


AUDIÊNCIA GERAL DO QUARTA-FEIRA, 14 DE NOVEMBRO DE 1979

1. Seguindo a narrativa do Gênesis, vimos que a criação "definitiva" do homem consiste na criação da unidade de dois seres. Sua unidade denota acima de tudo a identidade da natureza humana. Sua dualidade, por outro lado, manifesta o que, com base nessa identidade, constitui a masculinidade e a feminilidade do homem criado. Essa dimensão ontológica da unidade e da dualidade tem, ao mesmo tempo, um significado axiológico. Do texto de Gênesis 2:23 e de todo o contexto, é claramente visto que o homem foi criado como um valor particular diante de Deus. "Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom" (Gn 1, 31). Mas o homem também foi criado como um valor particular para si mesmo - primeiro, porque ele é homem; segundo, porque a mulher é para o homem, e vice-versa, o homem é para a mulher.

Enquanto o primeiro capítulo do Gênesis expressa esse valor de forma puramente teológica (e indiretamente, metafísico), o segundo capítulo, por outro lado, revela, por assim dizer, o primeiro círculo da experiência vivida pelo homem como valor. Esta experiência já está inscrita no sentido da solidão original e, em seguida, em toda a narrativa da criação do homem, como homem e mulher. O texto conciso de Gênesis 2:23, que contém as palavras do primeiro homem à visão da mulher criada, "tirado dele", pode ser considerado o protótipo bíblico do Cântico dos Cânticos. E se é possível ler impressões e emoções através de palavras tão remotas, quase se pode aventurar a dizer que existe uma profundidade e força nesta primeira unidade na "comunhão de pessoas"

2. Deste modo, o sentido da unidade original do homem, através da masculinidade e da feminilidade, é expresso como uma superação da fronteira da solidão. Ao mesmo tempo, é uma afirmação - em relação aos dois seres humanos - de tudo o que constitui o homem na solidão. Na narrativa bíblica, a solidão é o caminho que conduz àquela unidade que, após o Vaticano II, podemos definir como communio personarum. (1)

Como já vimos, em sua solidão original o homem adquire uma consciência pessoal no processo de distinção de todos os seres vivos (animalia). Ao mesmo tempo, nesta solidão, ele se abre a um ser semelhante a si mesmo, definido em Gênesis (2:18, 20) como "um ajudante adequado para ele". Essa abertura não é menos decisiva para a pessoa do homem; na verdade, talvez seja ainda mais decisivo do que a própria distinção. Na narrativa javista, a solidão do homem é apresentada não apenas como a primeira descoberta da transcendência característica peculiar à pessoa. É também apresentada como a descoberta de uma relação adequada "à" pessoa e, portanto, como abertura e expectativa de uma "comunhão de pessoas".

O termo "comunidade" também poderia ser usado aqui, se não fosse genérico e não tivesse tantos significados. Communio expressa mais, com maior precisão, pois indica precisamente essa "ajuda" que deriva, em certo sentido, do próprio fato de existir como pessoa "ao lado" de uma pessoa . Na narrativa bíblica, esse fato se torna eo ipso - em si mesmo - a existência da pessoa "para" a pessoa , já que o homem em sua solidão original estava, de certa forma, nessa relação. Isso é confirmado, em sentido negativo, precisamente por esta solidão.

Além disso, a comunhão das pessoas só poderia ser formada com base na "dupla solidão" do homem e da mulher, isto é, como o encontro em sua distinção do mundo dos seres vivos (animalia), que lhes dava tanto a possibilidade de existir e de existir em uma reciprocidade especial. O conceito de "ajuda" também expressa essa reciprocidade na existência, que nenhum outro ser vivo poderia ter assegurado. Tudo o que constituía o fundamento da solidão de cada um deles era indispensável para essa reciprocidade. O autoconhecimento e a autodeterminação, ou seja, a subjetividade e a consciência do significado do próprio corpo, eram também indispensáveis.

Imagem da comunhão divina inescrutável

3. No primeiro capítulo, a narrativa da criação do homem afirma diretamente, desde o princípio, que o homem foi criado à imagem de Deus como homem e mulher. A narrativa do segundo capítulo, por outro lado, não fala da "imagem de Deus". Mas, à sua maneira, revela que a criação completa e definitiva do "homem" (sujeita primeiramente à experiência da solidão original) é expressa em dar vida a essa communio personarum que o homem e a mulher formam. Desta forma, a narrativa javista concorda com o conteúdo da primeira narrativa.

Se, ao contrário, desejamos extrair também da narrativa do texto javista o conceito de "imagem de Deus", podemos deduzir que o homem se tornou a "imagem e semelhança" de Deus não só por meio de sua própria humanidade, mas também através da comunhão de pessoas que o homem e a mulher formam desde o princípio.A função da imagem é refletir aquele que é o modelo, reproduzir seu próprio protótipo. O homem torna-se a imagem de Deus não tanto no momento da solidão como no momento da comunhão. "Desde o princípio", ele não é apenas uma imagem em que se reflete a solidão de uma pessoa que governa o mundo, mas também, e essencialmente, uma imagem de uma inescrutável comunhão divina de pessoas.

Desta forma, a segunda narrativa poderia também ser uma preparação para a compreensão do conceito trinitário de "imagem de Deus", mesmo que esta só apareça na primeira narrativa. Obviamente, isso não é sem significado para a teologia do corpo. Talvez até mesmo constitua o aspecto teológico mais profundo de tudo o que pode ser dito sobre o homem. No mistério da criação - com base na "solidão" original e constitutiva de seu ser - o homem foi dotado de uma profunda unidade entre o que é, humanamente e através do corpo, masculino nele e o que é, igualmente humano e através do corpo, feminino nele. Em tudo isso, desde o início, desceu a bênção da fertilidade, ligada à procriação humana.

O corpo revela o homem

4. Desta forma, nos encontramos quase no cerne da realidade antropológica que tem o nome de "corpo". As palavras de Gênesis 2:23 falam dele diretamente e pela primeira vez nos seguintes termos: "carne da minha carne e osso dos meus ossos". O homem pronunciou estas palavras, como se fosse só à vista da mulher que ele foi capaz de identificar e chamar pelo nome o que os torna visivelmente semelhantes uns aos outros e, ao mesmo tempo, o que manifesta a humanidade.

À luz da análise precedente de todos os "corpos" com os quais o homem entrou em contato e que definiu, conceitualmente dando-lhes seu nome (animalia), a expressão "carne de minha carne" adquire precisamente esse significado: a corpo revela o homem. Esta fórmula concisa já contém tudo o que a ciência humana poderia dizer sobre a estrutura do corpo como organismo, sobre sua vitalidade e sua fisiologia sexual particular, etc. Esta primeira expressão do homem, "carne da minha carne", também contém um referência ao que torna esse corpo verdadeiramente humano. Portanto, referia-se ao que determina o homem como pessoa, isto é, como um ser que, mesmo em toda a sua corporalidade, é semelhante a Deus. (2)

Significado de unidade

Encontramo-nos, portanto, quase no cerne da realidade antropológica, cujo nome é "corpo", o corpo humano. No entanto, como pode ser facilmente visto, esse núcleo não é apenas antropológico, mas também essencialmente teológico. Desde o princípio, a teologia do corpo está ligada à criação do homem à imagem de Deus.Torna-se, de certa forma, também a teologia do sexo, ou melhor, a teologia da masculinidade e da feminilidade, que tem seu ponto de partida aqui no Gênesis.

O significado original da unidade, ao qual testemunham as palavras de Gênesis 2:24, terá na revelação de Deus uma perspectiva ampla e distante. Esta unidade através do corpo - "e os dois serão uma carne" - possui uma dimensão multiforme. Ela possui uma dimensão ética, como confirma a resposta de Cristo aos fariseus em Mateus 19 (Mc 10). Ela também tem uma dimensão sacramental, estritamente teológica, como é comprovado pelas palavras de São Paulo aos Efésios (3), que se referem também à tradição dos profetas (Oséias, Isaías, Ezequiel). E isto porque a unidade que se realiza através do corpo indica, desde o princípio, não só o "corpo", mas também o "encarnado".

Masculinidade e feminilidade expressam aspecto dual da constituição somática do homem . ("Isto é, finalmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne") e indicam, além disso, através das mesmas palavras de Gênesis 2:23, que indicam a nova consciência do sentido do próprio corpo: um sentido que, pode-se dizer, consiste em um enriquecimento mútuo. Precisamente essa consciência, através da qual a humanidade se forma novamente como a comunhão de pessoas, parece ser a camada que na narrativa da criação do homem (e na revelação do corpo nele contida) é mais profunda do que sua estrutura somática como o homem e mulher. 

Notas de Rodapé
1) "Mas Deus não criou o homem como um ser solitário, porque desde o princípio" homem e mulher os criou "(Gn 1, 27) e sua companhia produz a forma primária de comunhão interpessoal" ( Gaudium et Spes, 12).
2) A contraposição dualista "corpo-alma" não aparece na concepção dos livros mais antigos da Bíblia. Como já foi sublinhado (cf. L'Osservatore Romano , edição em inglês, 5 de novembro de 1979, página 15, nota 1), podemos falar antes de uma combinação complementar "corpo-vida". O corpo é a expressão da personalidade do homem, e se não esgota completamente este conceito, deve ser entendido na linguagem bíblica como pars pro toto ; Cf. Por exemplo: "A carne eo sangue não vos revelaram isto, mas meu Pai ..." (Mt 16:17), ou seja, não foi um homem que vosrevelou isto.
3) "Porque nenhum homem odeia a sua própria carne, mas a nutre e a valoriza, como Cristo faz a Igreja, porque somos membros do seu corpo." Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua esposa e os dois se tornarão uma só carne, um mistério profundo, e digo que se refere a Cristo e à Igreja "(Ef 5, 29-32).
Este será o tema de nossas reflexões na parte intitulada "O Sacramento".



Extraído de:
L'Osservatore Romano
Weekly Edition em inglês
19 novembro 1979, página 1
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